João pisou firme no tatame; com 1,95m, olhou todos os outros alunos de cima. A camisa branca apertada mostrava o tronco desenhado por anos de musculação; os braços podiam entortar barras de aço. Era o primeiro dia de aula.
Sete alunos conversavam; João puxou papo, perguntou se o professor era bom. Mestre Patinho apareceu e pediu, baixinho, para os alunos entrarem em formação. A sala era grande e bem iluminada; os espelhos nas paredes aumentavam a sensação de espaço. Na parede sem espelhos, quadros de lutadores famosos; no maior deles, quatro lutadores da mesma família sorriam simpáticos.
João se mexeu devagar olhando para o professor; Mestre Patinho era magricela, sorria de maneira suave. A montanha de músculos olhou bem para baixo quando cumprimentou Patinho (o professor não passava de 1,70m). Voltou para a formação sorrindo com menosprezo.
O Mestre mencionou o novo aluno e achou oportuno falar da sua filosofia. Nada de arrumar brigas na rua, nada de resolver discussões usando a força, nada de usar a arte marcial para machucar os outros. O diálogo era sempre melhor que quebrar um osso.
Patinho ouviu uma risada debochada; era João falando com um aluno ao lado. O Mestre perguntou se havia alguma dúvida.
- Ah, falar é fácil; na teoria tudo é muito bonito. Quero ver me mostrar na prática.
- Eu mostro pra você.
Patinho deu três passos devagar, se aproximou de João. Os alunos riram nervosos; confiavam no professor,mas João era muito grande, um monstro de 130 kg de puro músculo. Não parecia uma pessoa normal, era um robô disfarçado de gente, uma máquina criada para exterminar.
João esperava rindo. Patinho teve de fazer o primeiro movimento, colocou o braço no ombro do grandalhão. O punho enorme se fechou e voou na direção do peito do professor franzino, que girou o corpo e viu o colosso passar raspando. Patinho terminou de girar e passou debaixo do braço da máquina de músculos; torceu o pulso do exterminador enquanto empurrava o ombro e dava uma rasteira em João. Com um estrondo, os dois caíram no tatame. As pernas do Mestre se enrolaram no braço chegando até o pescoço do aluno.
Patinho empurrou o braço de aço para cima, torceu o ombro sem dificuldade, e disse devagar: - Bate no chão.
João resistia; Patinho empurrou de novo, agora com força. A máquina exterminadora berrou e estapeou o tatame com a mão livre. Patinho levantou, com indisfarçável prazer; um pequeno sorriso não desgrudava do rosto. João continuou gritando até que outro professor veio e colocou no lugar a clavícula deslocada.
Patinho ficou olhando a parede, de costas para os alunos, até conseguir tirar o sorriso. Virou para a classe e falou da importância de evitar uma briga. Nada de quebrar ossos, conversar é melhor. Olhou para João, no chão, mas já com a clavícula no lugar (e nenhum osso quebrado) e avisou que não queria esse tipo de aluno na academia. Patinho era convincente.
João voltou dois meses depois para a academia. Está lá há quatro anos; é o melhor aluno. Patinho gosta dele, mas sempre avisa que se brigar na rua, será expulso da academia. João briga pouco; quase sempre em outras cidades ou em lugares distantes de Patinho. Nesses lugares, ele não usa a filosofia do Mestre. Nada de deslocar clavículas; João quebra ossos.
domingo, 30 de dezembro de 2007
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Sky=Céu
O Senhor está no Céu!
O Sky está lá, finalmente no colinho de alguém. Agora ele cabe.
Cachorro imenso, uma das misturas mais lindas: mãe dogue alemã, pai weimaraner. Alma de criança, sem idéia do poder do seu corpo forte, da sua mandíbula gigantesca.
Sky – seu nome veio dos seus olhos cor do Céu quando nasceu – virou mar verde depois. Mar de alegria. Mar de docilidade, de inteligência, de inocência.
O Sky tinha medo de chinelo. Era chorão. Era manhoso.

Num churrasco, se metia entre as mesas, seu pêlo brilhante dava vontade de chegar à sobremesa. Era chocolate, aquele chocolate com duas uvas verdes encravadas na carona larga e forte. Seu rabo batia nos pratos, desajeitado e cuidadoso. Ele tinha tamanho e presença pra ganhar todo o churrasco. Mas pedia, babava, suplicava pelos pequenos pedaços que apenas aguçavam mais seu voraz paladar.
No parque, ia arfando. 50 Kg não são fáceis de carregar em seu garboso andar. Sua língua ia tentando chegar ao chão, pingando suor e contentamento. Eram outros cães, eram pombas, ou mesmo seguir a Nicole que ia solta, ao sabor do passeio vira-lata.
Sky tinha medo de bombas. Elas salteavam o seu Céu. Elas acabrunhavam seu sossego bonachão de cachorro babão. Sua vibração fazia-o saltar, latir, olhando para cima, como se as estrelas estivessem explodindo: que absurdo, explodir no meu Céu! O Sky está no Céu agora, explodindo sua criancice moleca.
O Sky tomou remédios a vida toda. Sua pele era rebelde, para equilibrar sua personalidade – cão-sonalidade – dócil. Ela infeccionava ao menor sinal de calor. Ficava com pipoquinhas na cabeça, tinha feridas nos cotovelos. Mas havia remédio, eram comprimidos sem fim de antobiótico, que Sky tomava resignado, envolvidos em patê ou qualquer outro engano. Ele sentava, chorava baixinho, mas abria a enorme boca que poderia ter engolido os remédios e a mão. O Sky confiava que o remédio era bom pra ele. Suas uvas verdes diziam – não gosto, mas se você está me dando, deve ser bom. Depois corria com o rabo frenético a persegui-lo – quero meu biscoito, minha recompensa por tão dramático fardo!
O banho do Sky era engraçado. Ele fuçava a água, mordia o jato, as orelhas apontavam para o chão e o enorme cão virava criança pequena. O shampoo especial exigia quinze minutos a sós com ele. E ele esperava, perseguindo o fio da água que escorria de seu corpão marrom. O banho era uma brincadeira aborrecida, muita espera pelo passeio–seca-pêlos! Mas no fim, quanta satisfação! Já na rua, marcava todos os postes, muros e arbustos que encontrava. Vejam o xixi do cachorro limpinho!
O Sky amedrontava as pessoas que passavam. Seu latido grave através da grade; na verdade dizia venha-brincar-comigo. Mas as pessoas pulavam de susto com a fera enjaulada.
Sky gostava de seus brinquedos, que ele só gostava porque tinha gente pra brincar com ele. Seus brinquedos faziam fi-fi, como os brinquedos de bebês. Ele os mastigava delicado, fazia fi-fi pelos caninos poderosos. Seus brinquedos permaneciam intactos. Quem diria! Pra um cachorro deste porte, tem que ser um brinquedo forte! Não para o Sky, gentil Sky, que lambia suas babas depois de brincar com seu hidrante roxo que fazia fi-fi. Ele puxava os brinquedos, rosnava de fantasia, era bravo de mentirinha. E eu colocava a mão todinha na bocona de fera, pra arrancar o hidrante roxo. O Sky corria pra casinha, escondendo o hidrante - que mala, me deixe lamber meu brinquedo babado!
Na hora de comer, o Sky ficava nas quatro patas. Tanta energia, pra que sentar! Ainda lembro do barulhinho chonk chonk satisfeito. Parabéns, comeu tudo! E já estava o Sky do lado da latinha do biscoito – quem dispensaria a sobremesa?
O Sky tinha ciúmes da sua comida. Mas a Nicole podia beber da sua água, podia comer das suas baguinhas esquecidas no fundo do pote. Nicole folgada, mas é minha irmãzinha....o Sky olhava resignado para a pequena vira-lata revirando sua prataria. Era um gentledog!
Gostava também de comida de gente. Ficava como uma sombra pidona, babando e chorando. Queria as cascas de banana, de pepino e de batata. E frutas – manga era sua favorita, fazia-no babar como nenhuma outra fruta.
Suas corridas eram lindas. A felicidade transparecia no rabo eletrizado, nas orelhas saltitantes. O Sky sorria com o rabo. Seu apêndice fino e comprido era um chicote. Machucava móveis e coxas, estapeava as crianças, sangrava de tanta felicidade. Reconhecia a todos, rebolava numa música só dele, devia ser do Céu.
Mas o sorriso ganhou bigodes de senhor. E as dores da idade chegaram. Seu corpo era grande demais, apesar da alma leve. Tenho certeza de que o Sky queria ser pequeno pra caber no colinho e choramingar pelo cafuné de orelha que ele gostava. Se encolhia na caminha minúscula da Nicole – ele achava que cabia – cabeça e traseiro pra fora, depois de inúmeras voltas tentando fazer caber o corpanzil.
O Sky era uma criança grande. Que morreu criança inocente, sem saber do seu mal. Olhava seus brinquedos, mas seu corpo cansado não obedecia ao frescor da mente. Era sua hora.
A alma jovial queria a liberdade de pular por entre as nuvens do seu CÉU.
O Sky está lá, finalmente no colinho de alguém. Agora ele cabe.
Cachorro imenso, uma das misturas mais lindas: mãe dogue alemã, pai weimaraner. Alma de criança, sem idéia do poder do seu corpo forte, da sua mandíbula gigantesca.
Sky – seu nome veio dos seus olhos cor do Céu quando nasceu – virou mar verde depois. Mar de alegria. Mar de docilidade, de inteligência, de inocência.
O Sky tinha medo de chinelo. Era chorão. Era manhoso.

Num churrasco, se metia entre as mesas, seu pêlo brilhante dava vontade de chegar à sobremesa. Era chocolate, aquele chocolate com duas uvas verdes encravadas na carona larga e forte. Seu rabo batia nos pratos, desajeitado e cuidadoso. Ele tinha tamanho e presença pra ganhar todo o churrasco. Mas pedia, babava, suplicava pelos pequenos pedaços que apenas aguçavam mais seu voraz paladar.
No parque, ia arfando. 50 Kg não são fáceis de carregar em seu garboso andar. Sua língua ia tentando chegar ao chão, pingando suor e contentamento. Eram outros cães, eram pombas, ou mesmo seguir a Nicole que ia solta, ao sabor do passeio vira-lata.
Sky tinha medo de bombas. Elas salteavam o seu Céu. Elas acabrunhavam seu sossego bonachão de cachorro babão. Sua vibração fazia-o saltar, latir, olhando para cima, como se as estrelas estivessem explodindo: que absurdo, explodir no meu Céu! O Sky está no Céu agora, explodindo sua criancice moleca.
O Sky tomou remédios a vida toda. Sua pele era rebelde, para equilibrar sua personalidade – cão-sonalidade – dócil. Ela infeccionava ao menor sinal de calor. Ficava com pipoquinhas na cabeça, tinha feridas nos cotovelos. Mas havia remédio, eram comprimidos sem fim de antobiótico, que Sky tomava resignado, envolvidos em patê ou qualquer outro engano. Ele sentava, chorava baixinho, mas abria a enorme boca que poderia ter engolido os remédios e a mão. O Sky confiava que o remédio era bom pra ele. Suas uvas verdes diziam – não gosto, mas se você está me dando, deve ser bom. Depois corria com o rabo frenético a persegui-lo – quero meu biscoito, minha recompensa por tão dramático fardo!
O banho do Sky era engraçado. Ele fuçava a água, mordia o jato, as orelhas apontavam para o chão e o enorme cão virava criança pequena. O shampoo especial exigia quinze minutos a sós com ele. E ele esperava, perseguindo o fio da água que escorria de seu corpão marrom. O banho era uma brincadeira aborrecida, muita espera pelo passeio–seca-pêlos! Mas no fim, quanta satisfação! Já na rua, marcava todos os postes, muros e arbustos que encontrava. Vejam o xixi do cachorro limpinho!
O Sky amedrontava as pessoas que passavam. Seu latido grave através da grade; na verdade dizia venha-brincar-comigo. Mas as pessoas pulavam de susto com a fera enjaulada.
Sky gostava de seus brinquedos, que ele só gostava porque tinha gente pra brincar com ele. Seus brinquedos faziam fi-fi, como os brinquedos de bebês. Ele os mastigava delicado, fazia fi-fi pelos caninos poderosos. Seus brinquedos permaneciam intactos. Quem diria! Pra um cachorro deste porte, tem que ser um brinquedo forte! Não para o Sky, gentil Sky, que lambia suas babas depois de brincar com seu hidrante roxo que fazia fi-fi. Ele puxava os brinquedos, rosnava de fantasia, era bravo de mentirinha. E eu colocava a mão todinha na bocona de fera, pra arrancar o hidrante roxo. O Sky corria pra casinha, escondendo o hidrante - que mala, me deixe lamber meu brinquedo babado!
Na hora de comer, o Sky ficava nas quatro patas. Tanta energia, pra que sentar! Ainda lembro do barulhinho chonk chonk satisfeito. Parabéns, comeu tudo! E já estava o Sky do lado da latinha do biscoito – quem dispensaria a sobremesa?
O Sky tinha ciúmes da sua comida. Mas a Nicole podia beber da sua água, podia comer das suas baguinhas esquecidas no fundo do pote. Nicole folgada, mas é minha irmãzinha....o Sky olhava resignado para a pequena vira-lata revirando sua prataria. Era um gentledog!
Gostava também de comida de gente. Ficava como uma sombra pidona, babando e chorando. Queria as cascas de banana, de pepino e de batata. E frutas – manga era sua favorita, fazia-no babar como nenhuma outra fruta.
Suas corridas eram lindas. A felicidade transparecia no rabo eletrizado, nas orelhas saltitantes. O Sky sorria com o rabo. Seu apêndice fino e comprido era um chicote. Machucava móveis e coxas, estapeava as crianças, sangrava de tanta felicidade. Reconhecia a todos, rebolava numa música só dele, devia ser do Céu.
Mas o sorriso ganhou bigodes de senhor. E as dores da idade chegaram. Seu corpo era grande demais, apesar da alma leve. Tenho certeza de que o Sky queria ser pequeno pra caber no colinho e choramingar pelo cafuné de orelha que ele gostava. Se encolhia na caminha minúscula da Nicole – ele achava que cabia – cabeça e traseiro pra fora, depois de inúmeras voltas tentando fazer caber o corpanzil.
O Sky era uma criança grande. Que morreu criança inocente, sem saber do seu mal. Olhava seus brinquedos, mas seu corpo cansado não obedecia ao frescor da mente. Era sua hora.
A alma jovial queria a liberdade de pular por entre as nuvens do seu CÉU.
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
O retrato do pecado
A luz do último poste apagou, a calçada estreita escureceu. Júlio andava devagar, os cães latiam, desacostumados ao barulho da rua sem movimento. Parou em frente ao portão, procurou a chave na bolsa cheia de tralhas. Entrou na casa, jogou a bolsa em um canto. Fitou a parede nua, parado no meio da sala, alguns segundos sem querer se mexer. Não havia móveis, dois banquinhos serviam de mesa. Livros espalhados pelo chão, camisas e meias sujas em um saco esperavam pela moça da lavanderia.
Catou as taças de vinho manchadas de vermelho pelo chão; duas delas em cacos atrapalhavam o caminho. Buscou água na cozinha, pegou uma xícara, abriu a torneira, a água escorria enferrujada.
Levantou os papéis amassados em busca do prato para servir de cinzeiro. Embaixo de um dos papéis, o telefone jazia sem bateria (ninguém ligaria mesmo aquele dia, nem nos outros). Acendeu o cigarro, a fumaça dançou pela sala e chegou aos pequenos quadros na parede (se tivessem rostos, eles envelheceriam).
Um torpor se alastrou pelos músculos, Júlio fez uma careta, talvez pela visão vazia da casa, talvez pelo vazio do estômago. Júlio fechou os olhos com força, irritado pelo silêncio e pela barba de três dias que coçava no rosto. Lembrou da boate sem letreiro, da fumaça, do cheiro de Gudang Garam, dos risos, da menina com sorriso artificial lhe tocando entre as pernas. Abriu e baixou os olhos para observar a mancha na camisa. Lembrou de empurrar a menina devagar, sem coragem de prosseguir; lembrou do riso detrás do balcão e de fechar os olhos de vergonha. A lembrança lhe excitou, mas a camisa lhe fazia mal; arrancou sem desabotoar completamente e a atirou junto com a gravata em um canto. Escancarou a janela; as cinzas dançaram com o vento sem sair do cinzeiro improvisado. Um bafo quente entrou na sala bem devagar.
Os cachorros latiram de novo. O portão rangeu estranhando mãos descuidadas. A porta abriu de repente. Um homem baixo e atarracado apareceu com uma careta. Empurrou com raiva Júlio contra a parede. O outro tropeçou, mas se segurou no banquinho; os papéis caíram. Uma voz feminina e rouca murmurou palavras que Júlio não conseguiu entender. Uma mão pesada estalou na cabeça de Júlio; algo duro demais para ser um punho explodiu na boca do estômago. Júlio caiu, chutes se repetiram nas costelas, na cabeça; o sangue encobria os olhos. Não conseguia ver nada além de três vultos se mexendo em volta dele.
Ouviu livros pesados caindo no chão. Vozes grossas descontentes, o murmúrio rouco mais uma vez. Dedos finos e cuidadosos entraram nos bolsos da calça ainda em Júlio. Silêncio. As cinzas se aquietaram. A brisa quente parou. Em um dos quadros na parede, uma imagem se desenhava com o sangue; um rosto chorava lágrimas vermelhas.
Catou as taças de vinho manchadas de vermelho pelo chão; duas delas em cacos atrapalhavam o caminho. Buscou água na cozinha, pegou uma xícara, abriu a torneira, a água escorria enferrujada.
Levantou os papéis amassados em busca do prato para servir de cinzeiro. Embaixo de um dos papéis, o telefone jazia sem bateria (ninguém ligaria mesmo aquele dia, nem nos outros). Acendeu o cigarro, a fumaça dançou pela sala e chegou aos pequenos quadros na parede (se tivessem rostos, eles envelheceriam).
Um torpor se alastrou pelos músculos, Júlio fez uma careta, talvez pela visão vazia da casa, talvez pelo vazio do estômago. Júlio fechou os olhos com força, irritado pelo silêncio e pela barba de três dias que coçava no rosto. Lembrou da boate sem letreiro, da fumaça, do cheiro de Gudang Garam, dos risos, da menina com sorriso artificial lhe tocando entre as pernas. Abriu e baixou os olhos para observar a mancha na camisa. Lembrou de empurrar a menina devagar, sem coragem de prosseguir; lembrou do riso detrás do balcão e de fechar os olhos de vergonha. A lembrança lhe excitou, mas a camisa lhe fazia mal; arrancou sem desabotoar completamente e a atirou junto com a gravata em um canto. Escancarou a janela; as cinzas dançaram com o vento sem sair do cinzeiro improvisado. Um bafo quente entrou na sala bem devagar.
Os cachorros latiram de novo. O portão rangeu estranhando mãos descuidadas. A porta abriu de repente. Um homem baixo e atarracado apareceu com uma careta. Empurrou com raiva Júlio contra a parede. O outro tropeçou, mas se segurou no banquinho; os papéis caíram. Uma voz feminina e rouca murmurou palavras que Júlio não conseguiu entender. Uma mão pesada estalou na cabeça de Júlio; algo duro demais para ser um punho explodiu na boca do estômago. Júlio caiu, chutes se repetiram nas costelas, na cabeça; o sangue encobria os olhos. Não conseguia ver nada além de três vultos se mexendo em volta dele.
Ouviu livros pesados caindo no chão. Vozes grossas descontentes, o murmúrio rouco mais uma vez. Dedos finos e cuidadosos entraram nos bolsos da calça ainda em Júlio. Silêncio. As cinzas se aquietaram. A brisa quente parou. Em um dos quadros na parede, uma imagem se desenhava com o sangue; um rosto chorava lágrimas vermelhas.
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
a Caneta e o Vestido
Clara chegou pontualmente à sua reunião. Não estava acostumada a chegar na hora. Sorriu à recepcionista, pedindo para falar com seu contato. Os segundos seguintes a fizeram lembrar do cansaço do dia.
Havia acordado tarde, empurrando sua lista de afazeres para a página do dia seguinte. Trocou-se às pressas, colocando a primeira roupa que encontrou. Não gostou do resultado, mas não havia tempo para mudanças de idéia. Agora, o sapato preto apertava seus calos, a blusa fina deixava passar o vento frio do final da tarde.
Com o mesmo sorriso, a recepcionista lhe informava que seu contato não poderia atendê-la.
Já havia agradecido, tentando disfarçar a decepção. Interrompeu sua meia-volta em direção à saída. O sangue voltou ao rosto, os olhos novamente atentos, pediu pelo comprador. Sem demora, a recepcionista digitava o ramal, enquanto Clara apressava-se em justificar que não havia marcado a reunião com ele, mas gostaria de não perder a viagem.
Batucando o balcão, Clara procurava se distrair com os arranjos de flores e plantas da entrada. Grandes orquídeas em vasos de alumínio, palmeiras em todos os cantos da grande sala acarpetada.
Sim, podia subir. Quase num pulo, Clara passou pelas catracas eletrônicas, e pisou no carpete que combinava com os sofás.
Foi recebida no andar por outra recepcionista. Silenciosa, fez-lhe uma reverência. Cabelos presos num coque alto, brincos pequenos e um tailleur-uniforme, a moça a encaminhou a uma sala de reuniões. Peito estufado com um novo ânimo, Clara deixou-se conduzir.
Sozinha na grande sala, Clara arrumou todo o seu material, lamentando não ter levado nenhuma amostra, apenas o catálogo novo com as fotos de seus produtos.
Após alguns minutos, ouviu uma batida na porta. Pensou estar na sala errada, já ia guardando seu cartão de visitas de volta no bolso, preparando suas desculpas por estar invadindo a área.
Daniel entrou, mais velho que imaginara. Ao telefone, sua voz sempre animada a enganara. Mas não foi a idade que chamou sua atenção. Levava na mão direita uma bengala retrátil, e usava óculos escuros no interior da empresa. Era cego.
Clara segurou a respiração. Levantou-se apressada, esticando a mão. Daniel passou a bengala para a mão esquerda e tateou o ar buscando a mão de Clara com a direita. Clara olhou nos olhos de Daniel. Seu olhar a atravessava, fixando-se em algum ponto da parede atrás de si. Por uma fração de segundos, manteve-se estática, procurando atinar seu próximo passo. Daniel sentou-se, habituado à posição das cadeiras na sala, Clara imitou-o.
Normalmente Clara era desenvolta nas reuniões, era objetiva e direta. Mas agora, gaguejava, procurava o fio da meada perdido na surpresa do cliente cego.
Uma frase....como vou mostrar o catálogo a ele? – outra frase desconexa....ainda bem que não trouxe amostras – voltava ao orçamento que havia mandado....será que ele é cego totalmente? – vocês estão precisando de quê? – será que ele está vendo o meu desconcerto? – e as canetas que receberam? – pergunto pra ele como apresentar o catálogo? – COMO APRESENTO O CATÁLOGO???
Daniel mantinha-se tranqüilo, ainda fitando a parede branca e lisa atrás de Clara. Respondia a todas as suas perguntas, a voz tranqüila e as mãos sempre sobre a mesa.
O momento de apresentar o catálogo havia chegado, os assuntos periféricos terminado. Afinal, era esta a finalidade da visita. As mãos tremendo, Clara colocou o catálogo na mesa. Daniel não se moveu, a parede era um ímã para seus olhos enevoados.
Decidiu pela pergunta direta. Optando pelo termo politicamente correto, Clara sentiu-se hipócrita. – Sua deficiência visual é completa? – perguntou.
Sim, não enxergo nada – foi a resposta, pura e clara.
Renovada pelo sucesso, Clara decidiu rapidamente. Contaria cada página para Daniel, deixando o catálogo aberto diante dele. Levaria a situação com naturalidade, e se lembraria das histórias de beira-de-cama que sua mãe lhe contava quando pequena. Lamentou não ter muitas amostras consigo, as poderia entregar para que Daniel tateasse seu peso, suas formas.
A cada página do catálogo, Clara sentia-se mais á vontade. Daniel deleitou-se com cada detalhe que ela lhe dava à imaginação. Clara descreveu cada caneta como se fosse um vestido da princesa dos contos de fada infantis.
Ao final do catálogo, Clara lembrou-se de ter uma das canetas do catálogo consigo. Entregou-lha a Daniel, que alegremente esticou suas mãos. Seus dedos eram calejados e as pontas ressecadas – sua vida toda passara por eles. Clara fechou os olhos. Imaginou a caneta enquanto a descrevia para o ouvinte atento, o tateador hábil.
Daniel adorou a caneta. Clara havia-se esquecido das agruras do dia. Não fechara nenhum pedido. Mas lembrou-se da luz do luar no vestido de Cinderela.
Havia acordado tarde, empurrando sua lista de afazeres para a página do dia seguinte. Trocou-se às pressas, colocando a primeira roupa que encontrou. Não gostou do resultado, mas não havia tempo para mudanças de idéia. Agora, o sapato preto apertava seus calos, a blusa fina deixava passar o vento frio do final da tarde.
Com o mesmo sorriso, a recepcionista lhe informava que seu contato não poderia atendê-la.
Já havia agradecido, tentando disfarçar a decepção. Interrompeu sua meia-volta em direção à saída. O sangue voltou ao rosto, os olhos novamente atentos, pediu pelo comprador. Sem demora, a recepcionista digitava o ramal, enquanto Clara apressava-se em justificar que não havia marcado a reunião com ele, mas gostaria de não perder a viagem.
Batucando o balcão, Clara procurava se distrair com os arranjos de flores e plantas da entrada. Grandes orquídeas em vasos de alumínio, palmeiras em todos os cantos da grande sala acarpetada.
Sim, podia subir. Quase num pulo, Clara passou pelas catracas eletrônicas, e pisou no carpete que combinava com os sofás.
Foi recebida no andar por outra recepcionista. Silenciosa, fez-lhe uma reverência. Cabelos presos num coque alto, brincos pequenos e um tailleur-uniforme, a moça a encaminhou a uma sala de reuniões. Peito estufado com um novo ânimo, Clara deixou-se conduzir.
Sozinha na grande sala, Clara arrumou todo o seu material, lamentando não ter levado nenhuma amostra, apenas o catálogo novo com as fotos de seus produtos.
Após alguns minutos, ouviu uma batida na porta. Pensou estar na sala errada, já ia guardando seu cartão de visitas de volta no bolso, preparando suas desculpas por estar invadindo a área.
Daniel entrou, mais velho que imaginara. Ao telefone, sua voz sempre animada a enganara. Mas não foi a idade que chamou sua atenção. Levava na mão direita uma bengala retrátil, e usava óculos escuros no interior da empresa. Era cego.
Clara segurou a respiração. Levantou-se apressada, esticando a mão. Daniel passou a bengala para a mão esquerda e tateou o ar buscando a mão de Clara com a direita. Clara olhou nos olhos de Daniel. Seu olhar a atravessava, fixando-se em algum ponto da parede atrás de si. Por uma fração de segundos, manteve-se estática, procurando atinar seu próximo passo. Daniel sentou-se, habituado à posição das cadeiras na sala, Clara imitou-o.
Normalmente Clara era desenvolta nas reuniões, era objetiva e direta. Mas agora, gaguejava, procurava o fio da meada perdido na surpresa do cliente cego.
Uma frase....como vou mostrar o catálogo a ele? – outra frase desconexa....ainda bem que não trouxe amostras – voltava ao orçamento que havia mandado....será que ele é cego totalmente? – vocês estão precisando de quê? – será que ele está vendo o meu desconcerto? – e as canetas que receberam? – pergunto pra ele como apresentar o catálogo? – COMO APRESENTO O CATÁLOGO???
Daniel mantinha-se tranqüilo, ainda fitando a parede branca e lisa atrás de Clara. Respondia a todas as suas perguntas, a voz tranqüila e as mãos sempre sobre a mesa.
O momento de apresentar o catálogo havia chegado, os assuntos periféricos terminado. Afinal, era esta a finalidade da visita. As mãos tremendo, Clara colocou o catálogo na mesa. Daniel não se moveu, a parede era um ímã para seus olhos enevoados.
Decidiu pela pergunta direta. Optando pelo termo politicamente correto, Clara sentiu-se hipócrita. – Sua deficiência visual é completa? – perguntou.
Sim, não enxergo nada – foi a resposta, pura e clara.
Renovada pelo sucesso, Clara decidiu rapidamente. Contaria cada página para Daniel, deixando o catálogo aberto diante dele. Levaria a situação com naturalidade, e se lembraria das histórias de beira-de-cama que sua mãe lhe contava quando pequena. Lamentou não ter muitas amostras consigo, as poderia entregar para que Daniel tateasse seu peso, suas formas.
A cada página do catálogo, Clara sentia-se mais á vontade. Daniel deleitou-se com cada detalhe que ela lhe dava à imaginação. Clara descreveu cada caneta como se fosse um vestido da princesa dos contos de fada infantis.
Ao final do catálogo, Clara lembrou-se de ter uma das canetas do catálogo consigo. Entregou-lha a Daniel, que alegremente esticou suas mãos. Seus dedos eram calejados e as pontas ressecadas – sua vida toda passara por eles. Clara fechou os olhos. Imaginou a caneta enquanto a descrevia para o ouvinte atento, o tateador hábil.
Daniel adorou a caneta. Clara havia-se esquecido das agruras do dia. Não fechara nenhum pedido. Mas lembrou-se da luz do luar no vestido de Cinderela.
sexta-feira, 5 de outubro de 2007
Vermelho e azul
O Sanhaço bicou o galho do ipê várias vezes, uma folha bem amarela cai não cai resolveu desabar bem em cima dele. Assustou, lembrou do gavião da tarde anterior, bateu a asa forte e pequenas folhas voaram; pulou para o jacarandá azul ao lado. Logo de manhã, pensou, e já atacado por uma folha. A pardalzinha passou grasnando, o Sanhaço fingiu não ver. Mal o sol apontava, a pardal já começava a piar, ninguém podia com tanto pio.
O jacarandá florido era bem melhor, podia ficar ali mesmo, escondido em todo aquele azul. Que preguiça de procurar outra árvore, sabia haver sementes por perto, mas não queria voar. O bico curvado se abriu em um bocejo; espreguiçava quando viu outra folha vindo na sua direção. Que folha que nada. A sombra passou reto, zunindo... O Sanhaço torceu o pescoço pro lado, fingindo não ver, ficou de soslaio.
A Curió sentou no galho bem abaixo, na direção do rio. Azulão e esguia, a curva da asa brilhava; ela ficava bem em meio ao jacarandá. Sem tirar o olho da plumagem da Curió, o Sanhaço se moveu para a ponta do galho. Queria observar melhor, uma Curió tão azul... Voou para o galho do lado, a Curió subiu repentina, o Sanhaço torceu a asa para não bater e soltou um pio. A Curió virou assustada e cruzou por meio dos galhos. De longe, fitava curiosa. Voltou, pediu desculpas, não tinha visto, que negligência, perdoasse, era nova por ali. O Sanhaço fez muxoxo, exagerou o incômodo, e ainda com bico meio fechado disse que não era nada. Ela piou mais, torceu o pescoço em um olhar doce; ele amoleceu. O azul combinava tão bem, tão parecidos.
As asas bateram ao mesmo tempo; ele piou feliz, lembrou das sementes na paineira vermelha. Ela aceitou. Perto da árvore, o Sanhaço avisou para ir devagar, não havia ali o azul do jacarandá. Foi na frente enquanto a Curió se ajeitava em dos galhos mais baixos. O Sanhaço fez um rasante e avistou algumas sementes no chão. Na volta, o Tiê-Sangue voava entre os galhos, mais vivo que as folhas da paineira e carregava uma semente no bico; a plumagem vermelha parou ao lado da Curió, saudou com o peito estufado. A Curió agradecia, as asas batendo bem devagar. As folhas vermelhas da paineira não deixavam o Sanhaço ver bem. As sementes sumiam, aparecia no lugar a imagem do verão anterior, a colibri fazendo do Tiê uma flor.
Asas semi-abertas, o Sanhaço se deixou cair, pousou no primeiro néctar e esvaziou o copo. Encostou no tronco, as penas amarfanhadas, os olhos fechando... Algum tempo passou, acordou com o pio da pardal novamente; ela voava rápido na direção do jacarandá, parecia fugir. O Sanhaço lembrou do gavião, ficou atrás de uma folha grossa. Devia voltar na paineira, a Curió... Resolveu voltar... A Curió estava entretida com a semente, viu o Sanhaço, fingiu não ver. Ele pousou no galho do lado, procurando prestar atenção em volta. A Curió ainda de costas, soltou duas notas longas. O canto, lindo, inebriava o Sanhaço. De repente, um borrão de penas marrons; o Sanhaço já não ouvia mais a Curió, não via o vermelho da paineira, não pensava mais no Tiê. Era sangue manchando seu azul.
O jacarandá florido era bem melhor, podia ficar ali mesmo, escondido em todo aquele azul. Que preguiça de procurar outra árvore, sabia haver sementes por perto, mas não queria voar. O bico curvado se abriu em um bocejo; espreguiçava quando viu outra folha vindo na sua direção. Que folha que nada. A sombra passou reto, zunindo... O Sanhaço torceu o pescoço pro lado, fingindo não ver, ficou de soslaio.
A Curió sentou no galho bem abaixo, na direção do rio. Azulão e esguia, a curva da asa brilhava; ela ficava bem em meio ao jacarandá. Sem tirar o olho da plumagem da Curió, o Sanhaço se moveu para a ponta do galho. Queria observar melhor, uma Curió tão azul... Voou para o galho do lado, a Curió subiu repentina, o Sanhaço torceu a asa para não bater e soltou um pio. A Curió virou assustada e cruzou por meio dos galhos. De longe, fitava curiosa. Voltou, pediu desculpas, não tinha visto, que negligência, perdoasse, era nova por ali. O Sanhaço fez muxoxo, exagerou o incômodo, e ainda com bico meio fechado disse que não era nada. Ela piou mais, torceu o pescoço em um olhar doce; ele amoleceu. O azul combinava tão bem, tão parecidos.
As asas bateram ao mesmo tempo; ele piou feliz, lembrou das sementes na paineira vermelha. Ela aceitou. Perto da árvore, o Sanhaço avisou para ir devagar, não havia ali o azul do jacarandá. Foi na frente enquanto a Curió se ajeitava em dos galhos mais baixos. O Sanhaço fez um rasante e avistou algumas sementes no chão. Na volta, o Tiê-Sangue voava entre os galhos, mais vivo que as folhas da paineira e carregava uma semente no bico; a plumagem vermelha parou ao lado da Curió, saudou com o peito estufado. A Curió agradecia, as asas batendo bem devagar. As folhas vermelhas da paineira não deixavam o Sanhaço ver bem. As sementes sumiam, aparecia no lugar a imagem do verão anterior, a colibri fazendo do Tiê uma flor.
Asas semi-abertas, o Sanhaço se deixou cair, pousou no primeiro néctar e esvaziou o copo. Encostou no tronco, as penas amarfanhadas, os olhos fechando... Algum tempo passou, acordou com o pio da pardal novamente; ela voava rápido na direção do jacarandá, parecia fugir. O Sanhaço lembrou do gavião, ficou atrás de uma folha grossa. Devia voltar na paineira, a Curió... Resolveu voltar... A Curió estava entretida com a semente, viu o Sanhaço, fingiu não ver. Ele pousou no galho do lado, procurando prestar atenção em volta. A Curió ainda de costas, soltou duas notas longas. O canto, lindo, inebriava o Sanhaço. De repente, um borrão de penas marrons; o Sanhaço já não ouvia mais a Curió, não via o vermelho da paineira, não pensava mais no Tiê. Era sangue manchando seu azul.
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
à meia-luz
Já cambaleando, ia-se deixando ao sono. Os cabelos desgrenhados, há muito haviam sido soltos. Embrenhou-se no apartamento à meia-luz que deixara na noite anterior, roçando as paredes. Olhou para a cama enquanto desabotoava a blusa apertada. Passou a mão pela barriga vazia, a língua pela boca seca. Foi à cozinha, ainda havia uma maçã. Apertou-a com os dentes, sorveu seu suco em pequenas mordidas. Saciada, sentou-se no sofá, tombando de lado enquanto subia as pernas lentamente, uma após a outra.
Sentiu o cheiro dele. Olhou ao redor, não havia sinal de nenhuma roupa esquecida. Inspirou novamente, os olhos fechados, atenta a todas as sensações. O cheiro não vinha de fora, mas do suor dele, condensado em seus pêlos. Descansou a cabeça, as mãos por entre os cabelos, o braço sob a nuca.
Entregou-se às lembranças por alguns minutos, rendida pelo cansaço. Seu corpo todo amolecia, seus pensamentos embaralhavam-se entre sensações e sonhos.
Ouviu a voz dele, sussurrando frases desconexas, a voz rouca e macia. Sorriu, estremeceu.
Como que sonâmbula, levantou-se e arrastou-se até o quarto, a boca entreaberta. Deitou-se na cama e sentiu as fibras dos lençóis em sua pele. Sorriu, pensou serem seus pêlos. Abraçou o travesseiro, encaixando-o sob seu queixo. Suspirou e continuou a sonhar.
Sentiu o cheiro dele. Olhou ao redor, não havia sinal de nenhuma roupa esquecida. Inspirou novamente, os olhos fechados, atenta a todas as sensações. O cheiro não vinha de fora, mas do suor dele, condensado em seus pêlos. Descansou a cabeça, as mãos por entre os cabelos, o braço sob a nuca.
Entregou-se às lembranças por alguns minutos, rendida pelo cansaço. Seu corpo todo amolecia, seus pensamentos embaralhavam-se entre sensações e sonhos.
Ouviu a voz dele, sussurrando frases desconexas, a voz rouca e macia. Sorriu, estremeceu.
Como que sonâmbula, levantou-se e arrastou-se até o quarto, a boca entreaberta. Deitou-se na cama e sentiu as fibras dos lençóis em sua pele. Sorriu, pensou serem seus pêlos. Abraçou o travesseiro, encaixando-o sob seu queixo. Suspirou e continuou a sonhar.
terça-feira, 4 de setembro de 2007
O parque
Marcelo entrou no parque, colocou o fone no ouvido e começou a correr. Pulou a cerca e passou pelas crianças trepando na árvore. Uma delas gritava: “Renaaaaataaaa, me ajudaaaa”. A primeira gota de suor escorreu pelo meio das costas quando ele passava pelos cachorros. Luke e Sara rolavam pelo gramado sem a atenção dos donos. Mário conversava distraído com a esposa, Joana, e havia se esquecido deles, um boxer marrom e uma grande golden retriever. A cachorra tinha folhas e um pouco de terra espalhados no pêlo macio e dourado. A língua de fora mostrava a sede e o descuido de Mário, que sempre esquecia do pote de água. Naquele dia, a pequena caixa de veludo preto no bolso era uma razão a mais para ter esquecido. Pegou a mão de Joana e sorriu, pronto para dizer as palavras tantas vezes planejadas.
O corredor suado continuou pelo meio das árvores e quase tropeçou em Cristina e Laércio. Eles se beijavam como se ninguém os visse, excitados, mas ainda contidos. Esqueciam da briga de manhã, das contas de segunda-feira, da infidelidade de Laércio. Marcelo parou, rendido à falta de forma. Também não podia passar sem notar a tartaruga cercada por três crianças. Felipe, Laura e Helena olhavam encantados o animal se movendo lentamente. Embevecidos, preferiam não tocar na tartaruga para não assustar.
O corredor seguiu, passou por um casal sorrindo – para si e para as crianças – e chegou a via asfaltada. Correu até completar três voltas pelo parque. Anoitecia. Sentou em uma marquise e observou homens andando no escuro, embaixo das árvores. Ronaldo conversava com Roberto e trocava olhares com Fabiano, que se aproximava sorrindo. Marcelo levantou, tirou a terra da bermuda e começou a caminhar devagar para a saída do parque. Os vendedores de bebidas arrastavam os carrinhos, cansados de um dia de trabalho longo e quente. Genésio chegou no parque às 9 da manhã, depois de acordar às 6. A barba por fazer e a roupa suja provocavam olhares dos clientes, que compravam assim mesmo. Marcelo estendeu uma nota de cinco reais e pediu uma H20. Genésio estendeu a garrafa e o troco. O corredor saiu pelo portão de metal e entrou no mundo de concreto. Pedestres passavam nas calçadas, carros avançavam lentamente na frente do parque, com motoristas tristes pelo final do domingo. As pessoas pareciam não ter mais nomes.
O corredor suado continuou pelo meio das árvores e quase tropeçou em Cristina e Laércio. Eles se beijavam como se ninguém os visse, excitados, mas ainda contidos. Esqueciam da briga de manhã, das contas de segunda-feira, da infidelidade de Laércio. Marcelo parou, rendido à falta de forma. Também não podia passar sem notar a tartaruga cercada por três crianças. Felipe, Laura e Helena olhavam encantados o animal se movendo lentamente. Embevecidos, preferiam não tocar na tartaruga para não assustar.
O corredor seguiu, passou por um casal sorrindo – para si e para as crianças – e chegou a via asfaltada. Correu até completar três voltas pelo parque. Anoitecia. Sentou em uma marquise e observou homens andando no escuro, embaixo das árvores. Ronaldo conversava com Roberto e trocava olhares com Fabiano, que se aproximava sorrindo. Marcelo levantou, tirou a terra da bermuda e começou a caminhar devagar para a saída do parque. Os vendedores de bebidas arrastavam os carrinhos, cansados de um dia de trabalho longo e quente. Genésio chegou no parque às 9 da manhã, depois de acordar às 6. A barba por fazer e a roupa suja provocavam olhares dos clientes, que compravam assim mesmo. Marcelo estendeu uma nota de cinco reais e pediu uma H20. Genésio estendeu a garrafa e o troco. O corredor saiu pelo portão de metal e entrou no mundo de concreto. Pedestres passavam nas calçadas, carros avançavam lentamente na frente do parque, com motoristas tristes pelo final do domingo. As pessoas pareciam não ter mais nomes.
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
A MANHÃ
Alguns dias não nos encontramos. Acordei pensando nele. Sorri e agradeci a Deus por acordar sozinha num dia cinzento e frio, e ainda sentir-me feliz - por ter a sua doce imagem na cabeça. Cambaleando, fui até a cozinha e peguei um copo d’água. As taças de vinho e as faquinhas que passam requeijão nos seus incontáveis sanduíches de manhã. Ri ao lembrar do barulhinho mal-educado da mastigação de boca aberta. Ele não respira pelo nariz, tem desvio de septo. “É por isso que sou assim meio lesado”...
Atrasada como sempre – sozinha ou com ele, sempre perdendo a hora. Na manhã anterior, nos atrasamos porque ficamos trocando beijos curtos, afinal, não tinha escovado os dentes. Ele insistiu que não sentia o cheirinho...também, nariz entupido... bem, voltando. Atrasada como sempre, corri para ligar o computador. Ainda abertos os arquivos da matéria que ele ficara escrevendo até as duas da manhã. Admirei as frases curtas, senti novamente sua paixão ao contar dos textos abstratos e concretos, do livro que estava lendo, da matéria de capa que estava desenvolvendo.
Chequei meus e-mails. Algumas mensagens no Orkut. Ah, Orkut – nosso cupido, a ferramenta que ele encontrou para me pescar entre tantas orientais. Sim, ele é louco por orientais, e eu fico doente com isso. Tenho ciúmes, especialmente dos olhos puxados. Mas isso é só um detalhe.
Rapidamente entro no MSN para não dar a impressão aos meus colegas de que acordei tarde. Primeiro, checar se ele está on-line. Ainda não. Deve estar tomando banho. Procuro atualizar meu nick para dizer a ele um bom dia indireto, para comentar depois. Vejo que ele ainda mantém o da noite anterior.
Enquanto meu leite esquenta – ele não toma leite pela manhã. Mas foi ele quem comprou o litro que eu vou tomar – volto ao computador, vejo um retangulinho laranja piscando....”oieeeeeeee”! Que gostoso! – “o que vc quis dizer com isso?” – explico, risadas, e mais alguns minutos nos deliciando com as juras de amor. Ele me conta como pensou em mim. Como tivemos saudade. Está com pressa. Eu também estou. Mas arranjamos sempre um tempinho para planejar a noite, não sem antes contar como será o dia. “Bom almoço! Quando nos falamos?”. Pensando que não nos falaríamos por um longo período, a despedida é comprida....e ele sai. Tem um “almoço executivo”. Me prometeu levar a um restaurante bacana onde sempre vai. Mas somente no mês que vem, o jantar deste mês foi semana passada. Estamos economizando. Eu, para pagar o carro. Ele, para acertar as contas.
Mas, ainda antes do almoço, enquanto eu fazia um orçamento – já atrasada para a visita – oieeeeeeee!
Atrasada como sempre – sozinha ou com ele, sempre perdendo a hora. Na manhã anterior, nos atrasamos porque ficamos trocando beijos curtos, afinal, não tinha escovado os dentes. Ele insistiu que não sentia o cheirinho...também, nariz entupido... bem, voltando. Atrasada como sempre, corri para ligar o computador. Ainda abertos os arquivos da matéria que ele ficara escrevendo até as duas da manhã. Admirei as frases curtas, senti novamente sua paixão ao contar dos textos abstratos e concretos, do livro que estava lendo, da matéria de capa que estava desenvolvendo.
Chequei meus e-mails. Algumas mensagens no Orkut. Ah, Orkut – nosso cupido, a ferramenta que ele encontrou para me pescar entre tantas orientais. Sim, ele é louco por orientais, e eu fico doente com isso. Tenho ciúmes, especialmente dos olhos puxados. Mas isso é só um detalhe.
Rapidamente entro no MSN para não dar a impressão aos meus colegas de que acordei tarde. Primeiro, checar se ele está on-line. Ainda não. Deve estar tomando banho. Procuro atualizar meu nick para dizer a ele um bom dia indireto, para comentar depois. Vejo que ele ainda mantém o da noite anterior.
Enquanto meu leite esquenta – ele não toma leite pela manhã. Mas foi ele quem comprou o litro que eu vou tomar – volto ao computador, vejo um retangulinho laranja piscando....”oieeeeeeee”! Que gostoso! – “o que vc quis dizer com isso?” – explico, risadas, e mais alguns minutos nos deliciando com as juras de amor. Ele me conta como pensou em mim. Como tivemos saudade. Está com pressa. Eu também estou. Mas arranjamos sempre um tempinho para planejar a noite, não sem antes contar como será o dia. “Bom almoço! Quando nos falamos?”. Pensando que não nos falaríamos por um longo período, a despedida é comprida....e ele sai. Tem um “almoço executivo”. Me prometeu levar a um restaurante bacana onde sempre vai. Mas somente no mês que vem, o jantar deste mês foi semana passada. Estamos economizando. Eu, para pagar o carro. Ele, para acertar as contas.
Mas, ainda antes do almoço, enquanto eu fazia um orçamento – já atrasada para a visita – oieeeeeeee!
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
A casa
A casa brotou do chão. No início, era tudo mato. Em um dia chuvoso, um carro avança pela rua cheia de barro até parar em uma bifurcação. A porta abre bem ali na ponta do terreno. Cheia de árvores ainda, a área é triangular. O dono olha as árvores e sonha. As ruas seguem pelos dois lados do terreno. O dono vai pela direita, e agora ali é a frente do terreno, ou pelo menos por onde todos vão entrar sempre.
O dono volta outro dia, acompanhado de um sertanejo (antes de tudo um forte) e um menino. A vegetação cai sob foices, machados e até sob o cutelo do menino (ele derruba só pequenas arvorezinhas, mas fica feliz de ajudar). A casa é construída. Bem devagar.
As paredes crescem vermelhas, de tijolo aparente. A varanda, longa, dobra e acompanha toda a parte da casa que está virada para dentro do terreno. Começa na frente do quarto do casal, dobra e passa na frente do quarto do adolescente (alguns anos depois do cutelo). Segue por mais uma porta, depois quebra para a esquerda, defronte das duas portas que saem da sala. E dobra uma última vez, em uma porta grande, que deveria ser a principal, mas nunca foi usada. Dali da ponta da varanda se vê o campinho de futebol, irregular, nem várzea é tão simples (os moleques e os homens simples da região não se importam, batem as peladas felizes e suadas ali).
Ao lado do campinho, um córrego serpenteia por uns 20 metros. O dono do terreno pensa em criar rãs por ali, depois sonha uma piscina. Nunca realiza essa parte do sonho. Mas muito sonho fica pronto por ali. Bem perto, várias árvores são plantadas e formam um pequeno pomar.
Ao lado do pomar há um pequeno barraco com galinhas e atrás delas, um ajuntamento de cana-de-açúcar. Na ponta do triângulo (ali perto de onde o dono sonhou pela primeira vez) está agora uma casa simples, ainda que de tijolo, mas sem pintura ou acabamento. Ali mora o caseiro. Ele cuida do sonho durante a semana.
O dono volta outro dia, acompanhado de um sertanejo (antes de tudo um forte) e um menino. A vegetação cai sob foices, machados e até sob o cutelo do menino (ele derruba só pequenas arvorezinhas, mas fica feliz de ajudar). A casa é construída. Bem devagar.
As paredes crescem vermelhas, de tijolo aparente. A varanda, longa, dobra e acompanha toda a parte da casa que está virada para dentro do terreno. Começa na frente do quarto do casal, dobra e passa na frente do quarto do adolescente (alguns anos depois do cutelo). Segue por mais uma porta, depois quebra para a esquerda, defronte das duas portas que saem da sala. E dobra uma última vez, em uma porta grande, que deveria ser a principal, mas nunca foi usada. Dali da ponta da varanda se vê o campinho de futebol, irregular, nem várzea é tão simples (os moleques e os homens simples da região não se importam, batem as peladas felizes e suadas ali).
Ao lado do campinho, um córrego serpenteia por uns 20 metros. O dono do terreno pensa em criar rãs por ali, depois sonha uma piscina. Nunca realiza essa parte do sonho. Mas muito sonho fica pronto por ali. Bem perto, várias árvores são plantadas e formam um pequeno pomar.
Ao lado do pomar há um pequeno barraco com galinhas e atrás delas, um ajuntamento de cana-de-açúcar. Na ponta do triângulo (ali perto de onde o dono sonhou pela primeira vez) está agora uma casa simples, ainda que de tijolo, mas sem pintura ou acabamento. Ali mora o caseiro. Ele cuida do sonho durante a semana.
sábado, 28 de julho de 2007
A árvore
A visão da árvore através da névoa úmida era muito diferente da noite anterior.
Ontem, toda a sua imponência curvava-se à força dos ventos, chorava folhas arrancadas pela chuva. A grande árvore parecia resignada com sua imobilidade centenária, as raízes que a impediam de fugir e, ironia: de ser arrancada também.
Hoje, sua majestade parecia ainda maior. Estava lá, em seu mesmo posto, mas não era mais uma mártir solitária. Era um monumento. A luz do sol e a brisa fresca faziam-lhe reverência.
Todo o gramado que levava a ela cheirava a bonança. O perfume da terra feliz enchia os pulmões de todos os animais, e sua cor, mais verde que nunca.
Seus galhos dançavam uma coreografia suave e alegre, a música que o vento fazia nas folhas. Em cada uma, as gotas resistentes multiplicavam pássaros num prisma de cor e brilho, as mesmas gotas que se recusavam a misturar ao ar já tão úmido das outras águas esquecidas. Queriam deixar sua marca, refletir cada cor da paisagem.
Nunca houve tantos verdes, pois a água não os havia levado, mas, sim, lavado de cores novas e frescas.
Em cada galho, cada reentrância da grande casa, a vida ressurgia de onde ontem parecia haver apenas desespero - ou ausência. Pássaros celebravam a luz e semeavam a próxima semente. Pequenos insetos sorviam o banquete que a árvore lhes oferecia, numa grande celebração. Esquilos divertiam-se encurtando a vida das gotas-espelho, emaranhando-se entre os galhos.
A vida voltava à grande árvore. Ela e cada parte dela pareciam conscientes, e portanto ainda mais felizes - de que sem a dureza da tempestade, não seriam capazes de sentir à plenitude , a beleza de um dia de sol.
Ontem, toda a sua imponência curvava-se à força dos ventos, chorava folhas arrancadas pela chuva. A grande árvore parecia resignada com sua imobilidade centenária, as raízes que a impediam de fugir e, ironia: de ser arrancada também.
Hoje, sua majestade parecia ainda maior. Estava lá, em seu mesmo posto, mas não era mais uma mártir solitária. Era um monumento. A luz do sol e a brisa fresca faziam-lhe reverência.
Todo o gramado que levava a ela cheirava a bonança. O perfume da terra feliz enchia os pulmões de todos os animais, e sua cor, mais verde que nunca.
Seus galhos dançavam uma coreografia suave e alegre, a música que o vento fazia nas folhas. Em cada uma, as gotas resistentes multiplicavam pássaros num prisma de cor e brilho, as mesmas gotas que se recusavam a misturar ao ar já tão úmido das outras águas esquecidas. Queriam deixar sua marca, refletir cada cor da paisagem.
Nunca houve tantos verdes, pois a água não os havia levado, mas, sim, lavado de cores novas e frescas.
Em cada galho, cada reentrância da grande casa, a vida ressurgia de onde ontem parecia haver apenas desespero - ou ausência. Pássaros celebravam a luz e semeavam a próxima semente. Pequenos insetos sorviam o banquete que a árvore lhes oferecia, numa grande celebração. Esquilos divertiam-se encurtando a vida das gotas-espelho, emaranhando-se entre os galhos.
A vida voltava à grande árvore. Ela e cada parte dela pareciam conscientes, e portanto ainda mais felizes - de que sem a dureza da tempestade, não seriam capazes de sentir à plenitude , a beleza de um dia de sol.
sexta-feira, 27 de julho de 2007
Luz e sombras
Fechou a porta, prendeu o dedo. A dor fez esquecer a fome, a conta a pagar e até o sono. Derrubou a pasta, pensou três nomes bonitos, um saiu baixinho. Respirou, contou até seis, não precisou chegar no dez. Acelerou o passo. Se chegasse agora no compromisso, ainda estaria atrasado. Empurrou a porta do elevador, viu o aguaceiro. Não dava tempo, vai sem guarda-chuva. Alcançou o táxi, lá se vão mais vinte reais. Não sabe chegar na Paulista? Depois de muito explicar, encostou no hotel. Na porta, as pessoas já saíam. Entrou rápido, pegou uma pasta, conversou com duas pessoas e foi embora. Rumo ao escritório, lembrou que precisava arranjar algo para mastigar. Conseguiu ainda ver o chefe entrando pela outra porta, correu pela da esquerda. Passou a catraca, aproveitou o elevador que se fechava, apinhado de gente. Abriu de novo, ele entrou olhando feio. Sentou na mesa, o estômago reclamava. Duas mensagens, cliente e o chefe, avisavam que a concorrência levou o contrato do ano. Levantou e resolveu procurar um lugar para comer. No restaurante, era legumes e feijão. Pegou meia colher de arroz e encontrou um resto de picadinho. De volta na mesa do escritório, o telefone tocou. Uma voz se identificava como cobrador, dando o último aviso. Colocou no gancho, fechou os olhos, pedindo concentração. Correu para terminar o relatório, só precisava a última revisada. A tela ficou preta, olhou em volta, a luz piscou. O computador ligava de novo sozinho. Não havia salvo o arquivo. Esperou calmamente. Um, dois, três. Abriu. Nada. Tudo vazio. Em meio ao desespero, lembrou de uma cópia semi-pronta no notebook. Correu para casa. Entrou, abriu a máquina. Lá estava. Bateu nas teclas, febril. Gravava a cada minuto. Fechou. Abriu o e-mail. Anexou. Falhou. Sem entender, percebeu a luz vermelha do modem. Lembrou da loja no térreo. Levou o arquivo, enviou, com uma mensagem no e-mail pedindo desculpas. O dia terminava, as nuvens se afastavam. Um pouco de luz ainda havia encontrado tempo para bater em seu rosto. Ele sorria. A vida é feita de contrastes, luz e sombras. Se você nunca teve dias ruins, como vai saber se viveu dias bons?
terça-feira, 24 de julho de 2007
Onde o Céu encontra o Mar
-Que bom, então você está feliz?
A pergunta da amiga rasgou a tranquila superfície. Procurou se esquivar da idéia de pensar nisso, mas a questão pairava sobre sua aparente alegria.
Seus dias - seus anos - vinham sendo felizes - não vinham?
Saiu do café sem lembrar o que havia dito à amiga. Talvez nem tenha respondido à pergunta, tenha mudado de assunto. Caminhou sem rumo, se esqueceu de tudo o mais que tinha a fazer. A pergunta na cabeça.
Sentia um vácuo....um vazio que não sabia como preencher. Percebeu que nunca se havia perguntado sobre a felicidade. Fechou os olhos, vasculhando suas memórias, pensando no que havia conquistado. Nada. A pergunta na cabeça.
Sentou-se no banco à beira-mar. Brisa quente, burburinho das pessoas, dos carros. Uma criança ria, uma onda quebrava. Sentiu-se só.
Quis compartilhar o abraço do vento. Quis dividir o vazio trazido pela pergunta. A pergunta na cabeça.
Lembrou do tempo em que sapatos novos desafogavam suas mágoas, quando a promoção a levou ao êxtase, revisitou o apartamento novo. A pergunta na cabeça.
Esquecera-se de seus sonhos de criança, do sorriso bobo, do sabor do chocolate comunitário, do cheiro de suor feliz, das risadas de cócegas, das horas falando sem medo, sentindo sem culpa. A pergunta na cabeça.
Quis um sorriso numa exposição. Desejou uma palavra numa desilusão. Almejou um passeio sem compromisso, um amanhecer preguiçoso, a devoção do amor perdido e inédito. Não era feliz.
Levantou-se, caminhou até a água e olhou o horizonte.
Mas onde o céu encontra o mar é tão longe...
A pergunta da amiga rasgou a tranquila superfície. Procurou se esquivar da idéia de pensar nisso, mas a questão pairava sobre sua aparente alegria.
Seus dias - seus anos - vinham sendo felizes - não vinham?
Saiu do café sem lembrar o que havia dito à amiga. Talvez nem tenha respondido à pergunta, tenha mudado de assunto. Caminhou sem rumo, se esqueceu de tudo o mais que tinha a fazer. A pergunta na cabeça.
Sentia um vácuo....um vazio que não sabia como preencher. Percebeu que nunca se havia perguntado sobre a felicidade. Fechou os olhos, vasculhando suas memórias, pensando no que havia conquistado. Nada. A pergunta na cabeça.
Sentou-se no banco à beira-mar. Brisa quente, burburinho das pessoas, dos carros. Uma criança ria, uma onda quebrava. Sentiu-se só.
Quis compartilhar o abraço do vento. Quis dividir o vazio trazido pela pergunta. A pergunta na cabeça.
Lembrou do tempo em que sapatos novos desafogavam suas mágoas, quando a promoção a levou ao êxtase, revisitou o apartamento novo. A pergunta na cabeça.
Esquecera-se de seus sonhos de criança, do sorriso bobo, do sabor do chocolate comunitário, do cheiro de suor feliz, das risadas de cócegas, das horas falando sem medo, sentindo sem culpa. A pergunta na cabeça.
Quis um sorriso numa exposição. Desejou uma palavra numa desilusão. Almejou um passeio sem compromisso, um amanhecer preguiçoso, a devoção do amor perdido e inédito. Não era feliz.
Levantou-se, caminhou até a água e olhou o horizonte.
Mas onde o céu encontra o mar é tão longe...
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Gorgeous
Passava das seis da manhã e era a quarta vez que o menino abria o olho. Abria pouco, olho puxado. A preguiça lentamente deixava o corpo. Os pais chamavam insistentes, pouco tolerantes. Sabiam que se a herança valesse, o garoto seria sempre preguiçoso. No dia anterior, havia ficado até tarde conversando com os amigos na internet. Depois, ainda pediu que lhe contassem uma história. Não dormiu no meio, essa atividade sempre o deixava desperto. Agora era difícil levantar. O pai já ameaçava jogar água no rosto, tinha de ser rápido. O cabelo liso não precisava pentear, escovou os dentes ligeiro, a mãe reclamou. Retrucou em inglês, bem britânico como ela gostava, fazendo charme. Brincou com a boxer, rolou no chão antes de pôr a camisa. Depois sujaria. Subiu com esforço na cadeira de adulto para ver melhor o que tinha para comer. Sem tempo, passou requeijão em dois pães, deixou cair na toalha. A mãe empurrou a maçã. O pai beijava e apertava, antecipando a saudade. Não era dele a vez de levar à escola. A porta abriu, o menino correu atrás gritando e repetindo a frase aprendida no dia anterior: “I am gooorgeous”.
sexta-feira, 13 de julho de 2007
A noite
Há! A hora de dormir....nunca fui submetida a uma das máximas maternas mais comuns nas boas famílias brasileiras: "hora de ir pra cama". Mesmo porque, esta hora nunca foi muito definida na MINHA família. Não que ela não seja uma boa família, claro. Sempre me perguntei se a minha briga com o relógio, principalmente nas últimas horas de vigília, era fenotípica ou genotípica mesmo. Porque nunca - nem quando bebezinha - gostei de acordar cedo. Que dirá dormir cedo... tanta coisa pra fazer, justamente na hora em que as minhas idéias estão mais claras (ou menos confusas)! A ver: conversa com a alma gêmea, filmes, livros, revistas, internet, afazeres domésticos (pobre vizinha...), rabichos esquecidos nas horas de torpor matutino - ou de leseira vespertina....listas a tentar cumprir na manhã seguinte, planos para o fim de semana, para o ano, para a vida - e a minha oração. Deus que me perdoe. Quase sempre a oração fica pela metade, afogada no sono que teimo em espremer em poucas e desesperadas horas. Mas gosto da noite. Ela sempre foi boa companheira. É por ela que corro todo o meu dia. É para ela que correm todos os meus dias.
Noite aconchegante, noite convergente (escrevam o que digo, esta palavra será a "reengenharia" ou o "downsizing" do momento), noite promissora, noite curta....vida longa à noite!
Noite aconchegante, noite convergente (escrevam o que digo, esta palavra será a "reengenharia" ou o "downsizing" do momento), noite promissora, noite curta....vida longa à noite!
quinta-feira, 5 de julho de 2007
Encontro raro
O líquido vermelho brilha na taça pousada no braço do sofá. Bem perto, sai a fumaça, que faz uma pirueta e desenha uma trajetória em direção a janela, vento ensinado. Ela passa em frente à televisão, que guarda suspensa uma cena, congelada há horas. Ao som de um sorriso (ou um suspiro), o animal levanta o focinho e uma das orelhas, tenta entender o sentimento humano. Sorrisos adolescentes, roçar dos cílios, a noite já não é mais uma criança. Em pouco tempo, os primeiros raios vão abrir caminho e interromper o reencontro. A alma, um dia cindida pelos deuses gregos, se prepara para se despedir de seu reflexo.
quinta-feira, 21 de junho de 2007
O Anjo e seu vôo leve
As perdas nos deixam tantas mensagens, basta querer vê-las. Ou, às vezes, arrumar forças e fé para enxergar.
Lembrar do que foi bom, nos mostra que perder fica pequeno diante da grandeza de viver.
A Amizade e o Amor Familiar mostram toda sua inabalável força, que enche o coração ardido da dor da perda, da saudade, da memória.
A fugacidade da vida, da saúde, da pessoa querida que teima em deixar sua lembrança...quanta vida temos a viver, quanta incerteza, quanto amor para demonstrar, amor, dedicação, respeito que não podem ser deixados pra depois. Numa hora estamos, na outra, idos.
A compreensão ofuscada pela dor, sentimentos, pensamentos, atos embaralhados na falta, na saudade, na incompreensão da perda irremediável. Por que seguir em frente, já não o temos mais.
Porque devemos homenageá-lo com a nossa felicidade, concluir a missão que o anjo passa a cumprir de outro lugar. Unir a família, demonstrar o valor da vida a ser saboreada.
Aqueça nosso coração, Fe. Olhe por nós que sentimos sua falta, do seu sorriso, do seu olhar, do seu apoio. Do alto da sua Paz, conforte-nos da sua perda, e permita-nos seguir na nossa vida com o aprendizado que só o sofrimento pode trazer.
Lembrar do que foi bom, nos mostra que perder fica pequeno diante da grandeza de viver.
A Amizade e o Amor Familiar mostram toda sua inabalável força, que enche o coração ardido da dor da perda, da saudade, da memória.
A fugacidade da vida, da saúde, da pessoa querida que teima em deixar sua lembrança...quanta vida temos a viver, quanta incerteza, quanto amor para demonstrar, amor, dedicação, respeito que não podem ser deixados pra depois. Numa hora estamos, na outra, idos.
A compreensão ofuscada pela dor, sentimentos, pensamentos, atos embaralhados na falta, na saudade, na incompreensão da perda irremediável. Por que seguir em frente, já não o temos mais.
Porque devemos homenageá-lo com a nossa felicidade, concluir a missão que o anjo passa a cumprir de outro lugar. Unir a família, demonstrar o valor da vida a ser saboreada.
Aqueça nosso coração, Fe. Olhe por nós que sentimos sua falta, do seu sorriso, do seu olhar, do seu apoio. Do alto da sua Paz, conforte-nos da sua perda, e permita-nos seguir na nossa vida com o aprendizado que só o sofrimento pode trazer.
segunda-feira, 18 de junho de 2007
Pessoas anjo
Anjos não são completamente bons ou maus. Não precisam de auréola ou asas, prescindem da aura celestial. Mas estiveram do seu lado no momento certo. É deles um sorriso que lhe marca a memória, riso leve, alma light. O anjo não pode faltar na sua vida. Contudo, ele não é eterno. Um dia parte, pode até ser de repente. Nessa hora tome emprestado a sua alma leve, reze baixinho e sorria lembrando que ele já vive nas estrelas.
PS.: Este não é um post trivial deste blog, foi feito em um momento especial.
PS.: Este não é um post trivial deste blog, foi feito em um momento especial.
domingo, 17 de junho de 2007
teste
a coisa só deve piorar mesmo....um brainstorming prá testar capacidades literárias nunca dantes navegadas. vamos ver no que vai dar. a semana promete emoções fortes, assunto a toda prova!
Despeja aí véio!
Domingão, quase uma da matina e a gente aqui despejando a inauguração de nosso primeiro trabalho literário conjunto! Daqui pra frente só piora...
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