-Que bom, então você está feliz?
A pergunta da amiga rasgou a tranquila superfície. Procurou se esquivar da idéia de pensar nisso, mas a questão pairava sobre sua aparente alegria.
Seus dias - seus anos - vinham sendo felizes - não vinham?
Saiu do café sem lembrar o que havia dito à amiga. Talvez nem tenha respondido à pergunta, tenha mudado de assunto. Caminhou sem rumo, se esqueceu de tudo o mais que tinha a fazer. A pergunta na cabeça.
Sentia um vácuo....um vazio que não sabia como preencher. Percebeu que nunca se havia perguntado sobre a felicidade. Fechou os olhos, vasculhando suas memórias, pensando no que havia conquistado. Nada. A pergunta na cabeça.
Sentou-se no banco à beira-mar. Brisa quente, burburinho das pessoas, dos carros. Uma criança ria, uma onda quebrava. Sentiu-se só.
Quis compartilhar o abraço do vento. Quis dividir o vazio trazido pela pergunta. A pergunta na cabeça.
Lembrou do tempo em que sapatos novos desafogavam suas mágoas, quando a promoção a levou ao êxtase, revisitou o apartamento novo. A pergunta na cabeça.
Esquecera-se de seus sonhos de criança, do sorriso bobo, do sabor do chocolate comunitário, do cheiro de suor feliz, das risadas de cócegas, das horas falando sem medo, sentindo sem culpa. A pergunta na cabeça.
Quis um sorriso numa exposição. Desejou uma palavra numa desilusão. Almejou um passeio sem compromisso, um amanhecer preguiçoso, a devoção do amor perdido e inédito. Não era feliz.
Levantou-se, caminhou até a água e olhou o horizonte.
Mas onde o céu encontra o mar é tão longe...
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