João pisou firme no tatame; com 1,95m, olhou todos os outros alunos de cima. A camisa branca apertada mostrava o tronco desenhado por anos de musculação; os braços podiam entortar barras de aço. Era o primeiro dia de aula.
Sete alunos conversavam; João puxou papo, perguntou se o professor era bom. Mestre Patinho apareceu e pediu, baixinho, para os alunos entrarem em formação. A sala era grande e bem iluminada; os espelhos nas paredes aumentavam a sensação de espaço. Na parede sem espelhos, quadros de lutadores famosos; no maior deles, quatro lutadores da mesma família sorriam simpáticos.
João se mexeu devagar olhando para o professor; Mestre Patinho era magricela, sorria de maneira suave. A montanha de músculos olhou bem para baixo quando cumprimentou Patinho (o professor não passava de 1,70m). Voltou para a formação sorrindo com menosprezo.
O Mestre mencionou o novo aluno e achou oportuno falar da sua filosofia. Nada de arrumar brigas na rua, nada de resolver discussões usando a força, nada de usar a arte marcial para machucar os outros. O diálogo era sempre melhor que quebrar um osso.
Patinho ouviu uma risada debochada; era João falando com um aluno ao lado. O Mestre perguntou se havia alguma dúvida.
- Ah, falar é fácil; na teoria tudo é muito bonito. Quero ver me mostrar na prática.
- Eu mostro pra você.
Patinho deu três passos devagar, se aproximou de João. Os alunos riram nervosos; confiavam no professor,mas João era muito grande, um monstro de 130 kg de puro músculo. Não parecia uma pessoa normal, era um robô disfarçado de gente, uma máquina criada para exterminar.
João esperava rindo. Patinho teve de fazer o primeiro movimento, colocou o braço no ombro do grandalhão. O punho enorme se fechou e voou na direção do peito do professor franzino, que girou o corpo e viu o colosso passar raspando. Patinho terminou de girar e passou debaixo do braço da máquina de músculos; torceu o pulso do exterminador enquanto empurrava o ombro e dava uma rasteira em João. Com um estrondo, os dois caíram no tatame. As pernas do Mestre se enrolaram no braço chegando até o pescoço do aluno.
Patinho empurrou o braço de aço para cima, torceu o ombro sem dificuldade, e disse devagar: - Bate no chão.
João resistia; Patinho empurrou de novo, agora com força. A máquina exterminadora berrou e estapeou o tatame com a mão livre. Patinho levantou, com indisfarçável prazer; um pequeno sorriso não desgrudava do rosto. João continuou gritando até que outro professor veio e colocou no lugar a clavícula deslocada.
Patinho ficou olhando a parede, de costas para os alunos, até conseguir tirar o sorriso. Virou para a classe e falou da importância de evitar uma briga. Nada de quebrar ossos, conversar é melhor. Olhou para João, no chão, mas já com a clavícula no lugar (e nenhum osso quebrado) e avisou que não queria esse tipo de aluno na academia. Patinho era convincente.
João voltou dois meses depois para a academia. Está lá há quatro anos; é o melhor aluno. Patinho gosta dele, mas sempre avisa que se brigar na rua, será expulso da academia. João briga pouco; quase sempre em outras cidades ou em lugares distantes de Patinho. Nesses lugares, ele não usa a filosofia do Mestre. Nada de deslocar clavículas; João quebra ossos.
domingo, 30 de dezembro de 2007
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Sky=Céu
O Senhor está no Céu!
O Sky está lá, finalmente no colinho de alguém. Agora ele cabe.
Cachorro imenso, uma das misturas mais lindas: mãe dogue alemã, pai weimaraner. Alma de criança, sem idéia do poder do seu corpo forte, da sua mandíbula gigantesca.
Sky – seu nome veio dos seus olhos cor do Céu quando nasceu – virou mar verde depois. Mar de alegria. Mar de docilidade, de inteligência, de inocência.
O Sky tinha medo de chinelo. Era chorão. Era manhoso.

Num churrasco, se metia entre as mesas, seu pêlo brilhante dava vontade de chegar à sobremesa. Era chocolate, aquele chocolate com duas uvas verdes encravadas na carona larga e forte. Seu rabo batia nos pratos, desajeitado e cuidadoso. Ele tinha tamanho e presença pra ganhar todo o churrasco. Mas pedia, babava, suplicava pelos pequenos pedaços que apenas aguçavam mais seu voraz paladar.
No parque, ia arfando. 50 Kg não são fáceis de carregar em seu garboso andar. Sua língua ia tentando chegar ao chão, pingando suor e contentamento. Eram outros cães, eram pombas, ou mesmo seguir a Nicole que ia solta, ao sabor do passeio vira-lata.
Sky tinha medo de bombas. Elas salteavam o seu Céu. Elas acabrunhavam seu sossego bonachão de cachorro babão. Sua vibração fazia-o saltar, latir, olhando para cima, como se as estrelas estivessem explodindo: que absurdo, explodir no meu Céu! O Sky está no Céu agora, explodindo sua criancice moleca.
O Sky tomou remédios a vida toda. Sua pele era rebelde, para equilibrar sua personalidade – cão-sonalidade – dócil. Ela infeccionava ao menor sinal de calor. Ficava com pipoquinhas na cabeça, tinha feridas nos cotovelos. Mas havia remédio, eram comprimidos sem fim de antobiótico, que Sky tomava resignado, envolvidos em patê ou qualquer outro engano. Ele sentava, chorava baixinho, mas abria a enorme boca que poderia ter engolido os remédios e a mão. O Sky confiava que o remédio era bom pra ele. Suas uvas verdes diziam – não gosto, mas se você está me dando, deve ser bom. Depois corria com o rabo frenético a persegui-lo – quero meu biscoito, minha recompensa por tão dramático fardo!
O banho do Sky era engraçado. Ele fuçava a água, mordia o jato, as orelhas apontavam para o chão e o enorme cão virava criança pequena. O shampoo especial exigia quinze minutos a sós com ele. E ele esperava, perseguindo o fio da água que escorria de seu corpão marrom. O banho era uma brincadeira aborrecida, muita espera pelo passeio–seca-pêlos! Mas no fim, quanta satisfação! Já na rua, marcava todos os postes, muros e arbustos que encontrava. Vejam o xixi do cachorro limpinho!
O Sky amedrontava as pessoas que passavam. Seu latido grave através da grade; na verdade dizia venha-brincar-comigo. Mas as pessoas pulavam de susto com a fera enjaulada.
Sky gostava de seus brinquedos, que ele só gostava porque tinha gente pra brincar com ele. Seus brinquedos faziam fi-fi, como os brinquedos de bebês. Ele os mastigava delicado, fazia fi-fi pelos caninos poderosos. Seus brinquedos permaneciam intactos. Quem diria! Pra um cachorro deste porte, tem que ser um brinquedo forte! Não para o Sky, gentil Sky, que lambia suas babas depois de brincar com seu hidrante roxo que fazia fi-fi. Ele puxava os brinquedos, rosnava de fantasia, era bravo de mentirinha. E eu colocava a mão todinha na bocona de fera, pra arrancar o hidrante roxo. O Sky corria pra casinha, escondendo o hidrante - que mala, me deixe lamber meu brinquedo babado!
Na hora de comer, o Sky ficava nas quatro patas. Tanta energia, pra que sentar! Ainda lembro do barulhinho chonk chonk satisfeito. Parabéns, comeu tudo! E já estava o Sky do lado da latinha do biscoito – quem dispensaria a sobremesa?
O Sky tinha ciúmes da sua comida. Mas a Nicole podia beber da sua água, podia comer das suas baguinhas esquecidas no fundo do pote. Nicole folgada, mas é minha irmãzinha....o Sky olhava resignado para a pequena vira-lata revirando sua prataria. Era um gentledog!
Gostava também de comida de gente. Ficava como uma sombra pidona, babando e chorando. Queria as cascas de banana, de pepino e de batata. E frutas – manga era sua favorita, fazia-no babar como nenhuma outra fruta.
Suas corridas eram lindas. A felicidade transparecia no rabo eletrizado, nas orelhas saltitantes. O Sky sorria com o rabo. Seu apêndice fino e comprido era um chicote. Machucava móveis e coxas, estapeava as crianças, sangrava de tanta felicidade. Reconhecia a todos, rebolava numa música só dele, devia ser do Céu.
Mas o sorriso ganhou bigodes de senhor. E as dores da idade chegaram. Seu corpo era grande demais, apesar da alma leve. Tenho certeza de que o Sky queria ser pequeno pra caber no colinho e choramingar pelo cafuné de orelha que ele gostava. Se encolhia na caminha minúscula da Nicole – ele achava que cabia – cabeça e traseiro pra fora, depois de inúmeras voltas tentando fazer caber o corpanzil.
O Sky era uma criança grande. Que morreu criança inocente, sem saber do seu mal. Olhava seus brinquedos, mas seu corpo cansado não obedecia ao frescor da mente. Era sua hora.
A alma jovial queria a liberdade de pular por entre as nuvens do seu CÉU.
O Sky está lá, finalmente no colinho de alguém. Agora ele cabe.
Cachorro imenso, uma das misturas mais lindas: mãe dogue alemã, pai weimaraner. Alma de criança, sem idéia do poder do seu corpo forte, da sua mandíbula gigantesca.
Sky – seu nome veio dos seus olhos cor do Céu quando nasceu – virou mar verde depois. Mar de alegria. Mar de docilidade, de inteligência, de inocência.
O Sky tinha medo de chinelo. Era chorão. Era manhoso.

Num churrasco, se metia entre as mesas, seu pêlo brilhante dava vontade de chegar à sobremesa. Era chocolate, aquele chocolate com duas uvas verdes encravadas na carona larga e forte. Seu rabo batia nos pratos, desajeitado e cuidadoso. Ele tinha tamanho e presença pra ganhar todo o churrasco. Mas pedia, babava, suplicava pelos pequenos pedaços que apenas aguçavam mais seu voraz paladar.
No parque, ia arfando. 50 Kg não são fáceis de carregar em seu garboso andar. Sua língua ia tentando chegar ao chão, pingando suor e contentamento. Eram outros cães, eram pombas, ou mesmo seguir a Nicole que ia solta, ao sabor do passeio vira-lata.
Sky tinha medo de bombas. Elas salteavam o seu Céu. Elas acabrunhavam seu sossego bonachão de cachorro babão. Sua vibração fazia-o saltar, latir, olhando para cima, como se as estrelas estivessem explodindo: que absurdo, explodir no meu Céu! O Sky está no Céu agora, explodindo sua criancice moleca.
O Sky tomou remédios a vida toda. Sua pele era rebelde, para equilibrar sua personalidade – cão-sonalidade – dócil. Ela infeccionava ao menor sinal de calor. Ficava com pipoquinhas na cabeça, tinha feridas nos cotovelos. Mas havia remédio, eram comprimidos sem fim de antobiótico, que Sky tomava resignado, envolvidos em patê ou qualquer outro engano. Ele sentava, chorava baixinho, mas abria a enorme boca que poderia ter engolido os remédios e a mão. O Sky confiava que o remédio era bom pra ele. Suas uvas verdes diziam – não gosto, mas se você está me dando, deve ser bom. Depois corria com o rabo frenético a persegui-lo – quero meu biscoito, minha recompensa por tão dramático fardo!
O banho do Sky era engraçado. Ele fuçava a água, mordia o jato, as orelhas apontavam para o chão e o enorme cão virava criança pequena. O shampoo especial exigia quinze minutos a sós com ele. E ele esperava, perseguindo o fio da água que escorria de seu corpão marrom. O banho era uma brincadeira aborrecida, muita espera pelo passeio–seca-pêlos! Mas no fim, quanta satisfação! Já na rua, marcava todos os postes, muros e arbustos que encontrava. Vejam o xixi do cachorro limpinho!
O Sky amedrontava as pessoas que passavam. Seu latido grave através da grade; na verdade dizia venha-brincar-comigo. Mas as pessoas pulavam de susto com a fera enjaulada.
Sky gostava de seus brinquedos, que ele só gostava porque tinha gente pra brincar com ele. Seus brinquedos faziam fi-fi, como os brinquedos de bebês. Ele os mastigava delicado, fazia fi-fi pelos caninos poderosos. Seus brinquedos permaneciam intactos. Quem diria! Pra um cachorro deste porte, tem que ser um brinquedo forte! Não para o Sky, gentil Sky, que lambia suas babas depois de brincar com seu hidrante roxo que fazia fi-fi. Ele puxava os brinquedos, rosnava de fantasia, era bravo de mentirinha. E eu colocava a mão todinha na bocona de fera, pra arrancar o hidrante roxo. O Sky corria pra casinha, escondendo o hidrante - que mala, me deixe lamber meu brinquedo babado!
Na hora de comer, o Sky ficava nas quatro patas. Tanta energia, pra que sentar! Ainda lembro do barulhinho chonk chonk satisfeito. Parabéns, comeu tudo! E já estava o Sky do lado da latinha do biscoito – quem dispensaria a sobremesa?
O Sky tinha ciúmes da sua comida. Mas a Nicole podia beber da sua água, podia comer das suas baguinhas esquecidas no fundo do pote. Nicole folgada, mas é minha irmãzinha....o Sky olhava resignado para a pequena vira-lata revirando sua prataria. Era um gentledog!
Gostava também de comida de gente. Ficava como uma sombra pidona, babando e chorando. Queria as cascas de banana, de pepino e de batata. E frutas – manga era sua favorita, fazia-no babar como nenhuma outra fruta.
Suas corridas eram lindas. A felicidade transparecia no rabo eletrizado, nas orelhas saltitantes. O Sky sorria com o rabo. Seu apêndice fino e comprido era um chicote. Machucava móveis e coxas, estapeava as crianças, sangrava de tanta felicidade. Reconhecia a todos, rebolava numa música só dele, devia ser do Céu.
Mas o sorriso ganhou bigodes de senhor. E as dores da idade chegaram. Seu corpo era grande demais, apesar da alma leve. Tenho certeza de que o Sky queria ser pequeno pra caber no colinho e choramingar pelo cafuné de orelha que ele gostava. Se encolhia na caminha minúscula da Nicole – ele achava que cabia – cabeça e traseiro pra fora, depois de inúmeras voltas tentando fazer caber o corpanzil.
O Sky era uma criança grande. Que morreu criança inocente, sem saber do seu mal. Olhava seus brinquedos, mas seu corpo cansado não obedecia ao frescor da mente. Era sua hora.
A alma jovial queria a liberdade de pular por entre as nuvens do seu CÉU.
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