Já cambaleando, ia-se deixando ao sono. Os cabelos desgrenhados, há muito haviam sido soltos. Embrenhou-se no apartamento à meia-luz que deixara na noite anterior, roçando as paredes. Olhou para a cama enquanto desabotoava a blusa apertada. Passou a mão pela barriga vazia, a língua pela boca seca. Foi à cozinha, ainda havia uma maçã. Apertou-a com os dentes, sorveu seu suco em pequenas mordidas. Saciada, sentou-se no sofá, tombando de lado enquanto subia as pernas lentamente, uma após a outra.
Sentiu o cheiro dele. Olhou ao redor, não havia sinal de nenhuma roupa esquecida. Inspirou novamente, os olhos fechados, atenta a todas as sensações. O cheiro não vinha de fora, mas do suor dele, condensado em seus pêlos. Descansou a cabeça, as mãos por entre os cabelos, o braço sob a nuca.
Entregou-se às lembranças por alguns minutos, rendida pelo cansaço. Seu corpo todo amolecia, seus pensamentos embaralhavam-se entre sensações e sonhos.
Ouviu a voz dele, sussurrando frases desconexas, a voz rouca e macia. Sorriu, estremeceu.
Como que sonâmbula, levantou-se e arrastou-se até o quarto, a boca entreaberta. Deitou-se na cama e sentiu as fibras dos lençóis em sua pele. Sorriu, pensou serem seus pêlos. Abraçou o travesseiro, encaixando-o sob seu queixo. Suspirou e continuou a sonhar.
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
terça-feira, 4 de setembro de 2007
O parque
Marcelo entrou no parque, colocou o fone no ouvido e começou a correr. Pulou a cerca e passou pelas crianças trepando na árvore. Uma delas gritava: “Renaaaaataaaa, me ajudaaaa”. A primeira gota de suor escorreu pelo meio das costas quando ele passava pelos cachorros. Luke e Sara rolavam pelo gramado sem a atenção dos donos. Mário conversava distraído com a esposa, Joana, e havia se esquecido deles, um boxer marrom e uma grande golden retriever. A cachorra tinha folhas e um pouco de terra espalhados no pêlo macio e dourado. A língua de fora mostrava a sede e o descuido de Mário, que sempre esquecia do pote de água. Naquele dia, a pequena caixa de veludo preto no bolso era uma razão a mais para ter esquecido. Pegou a mão de Joana e sorriu, pronto para dizer as palavras tantas vezes planejadas.
O corredor suado continuou pelo meio das árvores e quase tropeçou em Cristina e Laércio. Eles se beijavam como se ninguém os visse, excitados, mas ainda contidos. Esqueciam da briga de manhã, das contas de segunda-feira, da infidelidade de Laércio. Marcelo parou, rendido à falta de forma. Também não podia passar sem notar a tartaruga cercada por três crianças. Felipe, Laura e Helena olhavam encantados o animal se movendo lentamente. Embevecidos, preferiam não tocar na tartaruga para não assustar.
O corredor seguiu, passou por um casal sorrindo – para si e para as crianças – e chegou a via asfaltada. Correu até completar três voltas pelo parque. Anoitecia. Sentou em uma marquise e observou homens andando no escuro, embaixo das árvores. Ronaldo conversava com Roberto e trocava olhares com Fabiano, que se aproximava sorrindo. Marcelo levantou, tirou a terra da bermuda e começou a caminhar devagar para a saída do parque. Os vendedores de bebidas arrastavam os carrinhos, cansados de um dia de trabalho longo e quente. Genésio chegou no parque às 9 da manhã, depois de acordar às 6. A barba por fazer e a roupa suja provocavam olhares dos clientes, que compravam assim mesmo. Marcelo estendeu uma nota de cinco reais e pediu uma H20. Genésio estendeu a garrafa e o troco. O corredor saiu pelo portão de metal e entrou no mundo de concreto. Pedestres passavam nas calçadas, carros avançavam lentamente na frente do parque, com motoristas tristes pelo final do domingo. As pessoas pareciam não ter mais nomes.
O corredor suado continuou pelo meio das árvores e quase tropeçou em Cristina e Laércio. Eles se beijavam como se ninguém os visse, excitados, mas ainda contidos. Esqueciam da briga de manhã, das contas de segunda-feira, da infidelidade de Laércio. Marcelo parou, rendido à falta de forma. Também não podia passar sem notar a tartaruga cercada por três crianças. Felipe, Laura e Helena olhavam encantados o animal se movendo lentamente. Embevecidos, preferiam não tocar na tartaruga para não assustar.
O corredor seguiu, passou por um casal sorrindo – para si e para as crianças – e chegou a via asfaltada. Correu até completar três voltas pelo parque. Anoitecia. Sentou em uma marquise e observou homens andando no escuro, embaixo das árvores. Ronaldo conversava com Roberto e trocava olhares com Fabiano, que se aproximava sorrindo. Marcelo levantou, tirou a terra da bermuda e começou a caminhar devagar para a saída do parque. Os vendedores de bebidas arrastavam os carrinhos, cansados de um dia de trabalho longo e quente. Genésio chegou no parque às 9 da manhã, depois de acordar às 6. A barba por fazer e a roupa suja provocavam olhares dos clientes, que compravam assim mesmo. Marcelo estendeu uma nota de cinco reais e pediu uma H20. Genésio estendeu a garrafa e o troco. O corredor saiu pelo portão de metal e entrou no mundo de concreto. Pedestres passavam nas calçadas, carros avançavam lentamente na frente do parque, com motoristas tristes pelo final do domingo. As pessoas pareciam não ter mais nomes.
Assinar:
Comentários (Atom)