A luz do último poste apagou, a calçada estreita escureceu. Júlio andava devagar, os cães latiam, desacostumados ao barulho da rua sem movimento. Parou em frente ao portão, procurou a chave na bolsa cheia de tralhas. Entrou na casa, jogou a bolsa em um canto. Fitou a parede nua, parado no meio da sala, alguns segundos sem querer se mexer. Não havia móveis, dois banquinhos serviam de mesa. Livros espalhados pelo chão, camisas e meias sujas em um saco esperavam pela moça da lavanderia.
Catou as taças de vinho manchadas de vermelho pelo chão; duas delas em cacos atrapalhavam o caminho. Buscou água na cozinha, pegou uma xícara, abriu a torneira, a água escorria enferrujada.
Levantou os papéis amassados em busca do prato para servir de cinzeiro. Embaixo de um dos papéis, o telefone jazia sem bateria (ninguém ligaria mesmo aquele dia, nem nos outros). Acendeu o cigarro, a fumaça dançou pela sala e chegou aos pequenos quadros na parede (se tivessem rostos, eles envelheceriam).
Um torpor se alastrou pelos músculos, Júlio fez uma careta, talvez pela visão vazia da casa, talvez pelo vazio do estômago. Júlio fechou os olhos com força, irritado pelo silêncio e pela barba de três dias que coçava no rosto. Lembrou da boate sem letreiro, da fumaça, do cheiro de Gudang Garam, dos risos, da menina com sorriso artificial lhe tocando entre as pernas. Abriu e baixou os olhos para observar a mancha na camisa. Lembrou de empurrar a menina devagar, sem coragem de prosseguir; lembrou do riso detrás do balcão e de fechar os olhos de vergonha. A lembrança lhe excitou, mas a camisa lhe fazia mal; arrancou sem desabotoar completamente e a atirou junto com a gravata em um canto. Escancarou a janela; as cinzas dançaram com o vento sem sair do cinzeiro improvisado. Um bafo quente entrou na sala bem devagar.
Os cachorros latiram de novo. O portão rangeu estranhando mãos descuidadas. A porta abriu de repente. Um homem baixo e atarracado apareceu com uma careta. Empurrou com raiva Júlio contra a parede. O outro tropeçou, mas se segurou no banquinho; os papéis caíram. Uma voz feminina e rouca murmurou palavras que Júlio não conseguiu entender. Uma mão pesada estalou na cabeça de Júlio; algo duro demais para ser um punho explodiu na boca do estômago. Júlio caiu, chutes se repetiram nas costelas, na cabeça; o sangue encobria os olhos. Não conseguia ver nada além de três vultos se mexendo em volta dele.
Ouviu livros pesados caindo no chão. Vozes grossas descontentes, o murmúrio rouco mais uma vez. Dedos finos e cuidadosos entraram nos bolsos da calça ainda em Júlio. Silêncio. As cinzas se aquietaram. A brisa quente parou. Em um dos quadros na parede, uma imagem se desenhava com o sangue; um rosto chorava lágrimas vermelhas.
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
a Caneta e o Vestido
Clara chegou pontualmente à sua reunião. Não estava acostumada a chegar na hora. Sorriu à recepcionista, pedindo para falar com seu contato. Os segundos seguintes a fizeram lembrar do cansaço do dia.
Havia acordado tarde, empurrando sua lista de afazeres para a página do dia seguinte. Trocou-se às pressas, colocando a primeira roupa que encontrou. Não gostou do resultado, mas não havia tempo para mudanças de idéia. Agora, o sapato preto apertava seus calos, a blusa fina deixava passar o vento frio do final da tarde.
Com o mesmo sorriso, a recepcionista lhe informava que seu contato não poderia atendê-la.
Já havia agradecido, tentando disfarçar a decepção. Interrompeu sua meia-volta em direção à saída. O sangue voltou ao rosto, os olhos novamente atentos, pediu pelo comprador. Sem demora, a recepcionista digitava o ramal, enquanto Clara apressava-se em justificar que não havia marcado a reunião com ele, mas gostaria de não perder a viagem.
Batucando o balcão, Clara procurava se distrair com os arranjos de flores e plantas da entrada. Grandes orquídeas em vasos de alumínio, palmeiras em todos os cantos da grande sala acarpetada.
Sim, podia subir. Quase num pulo, Clara passou pelas catracas eletrônicas, e pisou no carpete que combinava com os sofás.
Foi recebida no andar por outra recepcionista. Silenciosa, fez-lhe uma reverência. Cabelos presos num coque alto, brincos pequenos e um tailleur-uniforme, a moça a encaminhou a uma sala de reuniões. Peito estufado com um novo ânimo, Clara deixou-se conduzir.
Sozinha na grande sala, Clara arrumou todo o seu material, lamentando não ter levado nenhuma amostra, apenas o catálogo novo com as fotos de seus produtos.
Após alguns minutos, ouviu uma batida na porta. Pensou estar na sala errada, já ia guardando seu cartão de visitas de volta no bolso, preparando suas desculpas por estar invadindo a área.
Daniel entrou, mais velho que imaginara. Ao telefone, sua voz sempre animada a enganara. Mas não foi a idade que chamou sua atenção. Levava na mão direita uma bengala retrátil, e usava óculos escuros no interior da empresa. Era cego.
Clara segurou a respiração. Levantou-se apressada, esticando a mão. Daniel passou a bengala para a mão esquerda e tateou o ar buscando a mão de Clara com a direita. Clara olhou nos olhos de Daniel. Seu olhar a atravessava, fixando-se em algum ponto da parede atrás de si. Por uma fração de segundos, manteve-se estática, procurando atinar seu próximo passo. Daniel sentou-se, habituado à posição das cadeiras na sala, Clara imitou-o.
Normalmente Clara era desenvolta nas reuniões, era objetiva e direta. Mas agora, gaguejava, procurava o fio da meada perdido na surpresa do cliente cego.
Uma frase....como vou mostrar o catálogo a ele? – outra frase desconexa....ainda bem que não trouxe amostras – voltava ao orçamento que havia mandado....será que ele é cego totalmente? – vocês estão precisando de quê? – será que ele está vendo o meu desconcerto? – e as canetas que receberam? – pergunto pra ele como apresentar o catálogo? – COMO APRESENTO O CATÁLOGO???
Daniel mantinha-se tranqüilo, ainda fitando a parede branca e lisa atrás de Clara. Respondia a todas as suas perguntas, a voz tranqüila e as mãos sempre sobre a mesa.
O momento de apresentar o catálogo havia chegado, os assuntos periféricos terminado. Afinal, era esta a finalidade da visita. As mãos tremendo, Clara colocou o catálogo na mesa. Daniel não se moveu, a parede era um ímã para seus olhos enevoados.
Decidiu pela pergunta direta. Optando pelo termo politicamente correto, Clara sentiu-se hipócrita. – Sua deficiência visual é completa? – perguntou.
Sim, não enxergo nada – foi a resposta, pura e clara.
Renovada pelo sucesso, Clara decidiu rapidamente. Contaria cada página para Daniel, deixando o catálogo aberto diante dele. Levaria a situação com naturalidade, e se lembraria das histórias de beira-de-cama que sua mãe lhe contava quando pequena. Lamentou não ter muitas amostras consigo, as poderia entregar para que Daniel tateasse seu peso, suas formas.
A cada página do catálogo, Clara sentia-se mais á vontade. Daniel deleitou-se com cada detalhe que ela lhe dava à imaginação. Clara descreveu cada caneta como se fosse um vestido da princesa dos contos de fada infantis.
Ao final do catálogo, Clara lembrou-se de ter uma das canetas do catálogo consigo. Entregou-lha a Daniel, que alegremente esticou suas mãos. Seus dedos eram calejados e as pontas ressecadas – sua vida toda passara por eles. Clara fechou os olhos. Imaginou a caneta enquanto a descrevia para o ouvinte atento, o tateador hábil.
Daniel adorou a caneta. Clara havia-se esquecido das agruras do dia. Não fechara nenhum pedido. Mas lembrou-se da luz do luar no vestido de Cinderela.
Havia acordado tarde, empurrando sua lista de afazeres para a página do dia seguinte. Trocou-se às pressas, colocando a primeira roupa que encontrou. Não gostou do resultado, mas não havia tempo para mudanças de idéia. Agora, o sapato preto apertava seus calos, a blusa fina deixava passar o vento frio do final da tarde.
Com o mesmo sorriso, a recepcionista lhe informava que seu contato não poderia atendê-la.
Já havia agradecido, tentando disfarçar a decepção. Interrompeu sua meia-volta em direção à saída. O sangue voltou ao rosto, os olhos novamente atentos, pediu pelo comprador. Sem demora, a recepcionista digitava o ramal, enquanto Clara apressava-se em justificar que não havia marcado a reunião com ele, mas gostaria de não perder a viagem.
Batucando o balcão, Clara procurava se distrair com os arranjos de flores e plantas da entrada. Grandes orquídeas em vasos de alumínio, palmeiras em todos os cantos da grande sala acarpetada.
Sim, podia subir. Quase num pulo, Clara passou pelas catracas eletrônicas, e pisou no carpete que combinava com os sofás.
Foi recebida no andar por outra recepcionista. Silenciosa, fez-lhe uma reverência. Cabelos presos num coque alto, brincos pequenos e um tailleur-uniforme, a moça a encaminhou a uma sala de reuniões. Peito estufado com um novo ânimo, Clara deixou-se conduzir.
Sozinha na grande sala, Clara arrumou todo o seu material, lamentando não ter levado nenhuma amostra, apenas o catálogo novo com as fotos de seus produtos.
Após alguns minutos, ouviu uma batida na porta. Pensou estar na sala errada, já ia guardando seu cartão de visitas de volta no bolso, preparando suas desculpas por estar invadindo a área.
Daniel entrou, mais velho que imaginara. Ao telefone, sua voz sempre animada a enganara. Mas não foi a idade que chamou sua atenção. Levava na mão direita uma bengala retrátil, e usava óculos escuros no interior da empresa. Era cego.
Clara segurou a respiração. Levantou-se apressada, esticando a mão. Daniel passou a bengala para a mão esquerda e tateou o ar buscando a mão de Clara com a direita. Clara olhou nos olhos de Daniel. Seu olhar a atravessava, fixando-se em algum ponto da parede atrás de si. Por uma fração de segundos, manteve-se estática, procurando atinar seu próximo passo. Daniel sentou-se, habituado à posição das cadeiras na sala, Clara imitou-o.
Normalmente Clara era desenvolta nas reuniões, era objetiva e direta. Mas agora, gaguejava, procurava o fio da meada perdido na surpresa do cliente cego.
Uma frase....como vou mostrar o catálogo a ele? – outra frase desconexa....ainda bem que não trouxe amostras – voltava ao orçamento que havia mandado....será que ele é cego totalmente? – vocês estão precisando de quê? – será que ele está vendo o meu desconcerto? – e as canetas que receberam? – pergunto pra ele como apresentar o catálogo? – COMO APRESENTO O CATÁLOGO???
Daniel mantinha-se tranqüilo, ainda fitando a parede branca e lisa atrás de Clara. Respondia a todas as suas perguntas, a voz tranqüila e as mãos sempre sobre a mesa.
O momento de apresentar o catálogo havia chegado, os assuntos periféricos terminado. Afinal, era esta a finalidade da visita. As mãos tremendo, Clara colocou o catálogo na mesa. Daniel não se moveu, a parede era um ímã para seus olhos enevoados.
Decidiu pela pergunta direta. Optando pelo termo politicamente correto, Clara sentiu-se hipócrita. – Sua deficiência visual é completa? – perguntou.
Sim, não enxergo nada – foi a resposta, pura e clara.
Renovada pelo sucesso, Clara decidiu rapidamente. Contaria cada página para Daniel, deixando o catálogo aberto diante dele. Levaria a situação com naturalidade, e se lembraria das histórias de beira-de-cama que sua mãe lhe contava quando pequena. Lamentou não ter muitas amostras consigo, as poderia entregar para que Daniel tateasse seu peso, suas formas.
A cada página do catálogo, Clara sentia-se mais á vontade. Daniel deleitou-se com cada detalhe que ela lhe dava à imaginação. Clara descreveu cada caneta como se fosse um vestido da princesa dos contos de fada infantis.
Ao final do catálogo, Clara lembrou-se de ter uma das canetas do catálogo consigo. Entregou-lha a Daniel, que alegremente esticou suas mãos. Seus dedos eram calejados e as pontas ressecadas – sua vida toda passara por eles. Clara fechou os olhos. Imaginou a caneta enquanto a descrevia para o ouvinte atento, o tateador hábil.
Daniel adorou a caneta. Clara havia-se esquecido das agruras do dia. Não fechara nenhum pedido. Mas lembrou-se da luz do luar no vestido de Cinderela.
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