Paramos de colocar posts alternados: estava difícil de exigir a alternância e manter a constância.
Mas preciso continuar escrevendo.
Nos últimos anos ficou clara a minha vocação nesta vida: ser uma pessoa melhor. Acumular créditos agora para garantir minha previdência pós morte.
Outro dia, depois de um terrível embate por um cliente, chorando e com dores de estômago, eu conversava com minhas colegas de trabalho. Mulheres mais novas, com filhos, assistentes ou gerentes, todos os tipos. Uma delas, com a qual eu já tinha tido uma discussão quente por telefone, por motivo quase nenhum, me olhou de lado, um olho fechado e aquele nariz enrugado de quem sente um cheiro ruim e disparou: nossa, você é legal. Antes você era tão chata.
Parei e olhei para ela. Sem jeito, agradeci. Depois de tomar minhas providências sobre o assunto que fez doer meu estômago, já voltando para casa, só pude sorrir ao lembrar da afirmação da colega que me vê duas vezes ao mês. Eu não sabia o quanto tinha a aprender cinco anos atrás. Neste dia, comprovei que eu sou muito diferente do que fui há tão pouco tempo.
E que o caminho ainda é bastante longo.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Um pente, um endereço
Um pente de bolso e um pedaço de papel de pão com um endereço anotado: São Roque. Jovino olhou rapidamente para os dois itens que não podia esquecer. Não era difícil, pois não havia mais nada sobre a lata de tinta vazia que servia como mesa. Sua bagagem sobressaía-lhe aos olhos, em meio ao barraco semi-vazio. No canto direito, apenas o fogareiro de esmalte azul descascado, uma panela amassada com o resto do feijão do café da manhã. No canto esquerdo, a cadeira de madeira e palha, seu único pertence trazido de Garanhuns. Presente de sua querida irmã. Teria ela guardado em São Roque as outras 3 cadeiras do jogo? Jovino esperava que sim. Havia ajudado a fazê-las com suas mãozinhas de saudosos 4 anos, olhos atentos ao trabalho da mãe artesã. Sua única lembrança dela.
Sentiu um calafrio.
À frente, a porta deixava passar a luz do mundo, iluminando em cheio sua bagagem. Sentado em seu colchão, de frente para a porta, agora só precisava colocar o pente e o endereço no bolso.
Penteou novamente os cabelos brancos, deu uma última olhada no caco de vidro sobre a bacia de água ao lado da cadeira.
Estava alinhado.
Enfiou o pente no bolso da camisa, o endereço no bolso da calça. Cuidou para colocar no bolso de trás, o da frente tinha um furo do tamanho de seu punho.
Passou o cadeado no ferrolho enferrujado. Apertou os olhos azuis para acostumá-los à claridade.
São Roque não deve ser longe. Na saída do Heliópolis, parou no boteco do Jonas para tomar informação.
Sueli e suas ancas saíam do bar. Os olhos de Jonas foram junto. A figura atarracada de Jovino cortou o fio que havia colado a vista de Jonas ao traseiro de Sueli.
- Fala, Jovino - cantos de boca puxados, olhar de peixe-morto, Jonas esticava o pescoço para tentar olhar por cima do ombro do viajante.
- Como é que eu chego em São Roque?
- Como é que eu vou saber? Eu lá tenho cara de posto de informação? Vai pro terminal que eles te ensinam, pô!
- Onde?
- Barra Funda, rapaz. Vai um trago antes?
- Brigado, fica pra volta. Guarda prá noite.
Jovino saiu andando. Cabeça baixa, só levantava para checar as placas. Mal havia começado, e o dia já estava quente. Pensou no que a irmã prepararia para o seu almoço.
Nada de placas para a Barra Funda.
Lá pelas 11 horas, já cansado, mas penteado, parou numa oficina. Disseram-lhe que pegasse o metrô, era muito longe para ir a pé.
Jovino não tinha idéia do tamanho da cidade, não tinha andado nem um décimo do caminho. O homem deu-lhe R$5,00 - Pega o metrô ali adiante.
Jovino andou. Pensou no mecânico gordo que lhe dera o dinheiro. Gordo daquele jeito, tudo deve ser longe pra ele. E passou direto pelo metrô. E seguiu andando.
Ás três da tarde, faminto, suado e despenteado, parou numa lanchonete.
- Onde fica a Barra Funda? - perguntou à balconista.
- Fica na Zona Norte. Longe.
O que realmente significava longe? - Aveninda Paulista - leu devagar na placa. Devo estar perto, a moça também não sai daqui, nem deve saber.
O cheiro de presunto encheu-lhe as narinas, olhou o misto-quente na chapa. Sua barriga roncou, clamava pelo sanduíche.
Enfiou a mão no bolso, procurando os R$5,00 do mecânico. Diabos, preciso comer. Maldito bolso furado!
Sentiu um calafrio.
À frente, a porta deixava passar a luz do mundo, iluminando em cheio sua bagagem. Sentado em seu colchão, de frente para a porta, agora só precisava colocar o pente e o endereço no bolso.
Penteou novamente os cabelos brancos, deu uma última olhada no caco de vidro sobre a bacia de água ao lado da cadeira.
Estava alinhado.
Enfiou o pente no bolso da camisa, o endereço no bolso da calça. Cuidou para colocar no bolso de trás, o da frente tinha um furo do tamanho de seu punho.
Passou o cadeado no ferrolho enferrujado. Apertou os olhos azuis para acostumá-los à claridade.
São Roque não deve ser longe. Na saída do Heliópolis, parou no boteco do Jonas para tomar informação.
Sueli e suas ancas saíam do bar. Os olhos de Jonas foram junto. A figura atarracada de Jovino cortou o fio que havia colado a vista de Jonas ao traseiro de Sueli.
- Fala, Jovino - cantos de boca puxados, olhar de peixe-morto, Jonas esticava o pescoço para tentar olhar por cima do ombro do viajante.
- Como é que eu chego em São Roque?
- Como é que eu vou saber? Eu lá tenho cara de posto de informação? Vai pro terminal que eles te ensinam, pô!
- Onde?
- Barra Funda, rapaz. Vai um trago antes?
- Brigado, fica pra volta. Guarda prá noite.
Jovino saiu andando. Cabeça baixa, só levantava para checar as placas. Mal havia começado, e o dia já estava quente. Pensou no que a irmã prepararia para o seu almoço.
Nada de placas para a Barra Funda.
Lá pelas 11 horas, já cansado, mas penteado, parou numa oficina. Disseram-lhe que pegasse o metrô, era muito longe para ir a pé.
Jovino não tinha idéia do tamanho da cidade, não tinha andado nem um décimo do caminho. O homem deu-lhe R$5,00 - Pega o metrô ali adiante.
Jovino andou. Pensou no mecânico gordo que lhe dera o dinheiro. Gordo daquele jeito, tudo deve ser longe pra ele. E passou direto pelo metrô. E seguiu andando.
Ás três da tarde, faminto, suado e despenteado, parou numa lanchonete.
- Onde fica a Barra Funda? - perguntou à balconista.
- Fica na Zona Norte. Longe.
O que realmente significava longe? - Aveninda Paulista - leu devagar na placa. Devo estar perto, a moça também não sai daqui, nem deve saber.
O cheiro de presunto encheu-lhe as narinas, olhou o misto-quente na chapa. Sua barriga roncou, clamava pelo sanduíche.
Enfiou a mão no bolso, procurando os R$5,00 do mecânico. Diabos, preciso comer. Maldito bolso furado!
quarta-feira, 9 de abril de 2008
A busca pela cura
Tony faz uma careta, estica o braço e pega a pinça; com habilidade, arranca o insistente e pequeno fio branco do meio do queixo. Joga na pia, enquanto olha no espelho em busca de outra vítima (não quero tingir de novo). Bem perto do reflexo, muda de alvo. Estica a pele em volta dos olhos com a ponta dos dedos, segura e conta até dez (bom para remoçar, dizem); por fim, passa o terceiro creme da noite. Depois, corre agilmente para a cama e venda os olhos; tateia o criado-mudo, quase derruba o retrato da mãe (é mesmo, ela deve ligar logo de manhã) e apaga a luz. Relaxa, músculos levemente doloridos, depois da academia. Adormece.
O relógio toca, estridente; uma, duas, três, oito vezes. Finalmente, cansado como quem correu 42km, estica a mão e aperta devagar o botão. Quer jogar na parede, mas a preguiça o domina (sensação esquisita...)
Se arrasta na cama, um pé, a mão empurra para o lado, vem a outra perna, agora a outra mão empurra o corpo para cima. Sentou. Quase dez minutos depois se levanta e se dirige para o banheiro. Aí sente uma pequena pontada no joelho (ah, não precisavam entrar tão na maldade, o gol nem valeu).
Acende a luz e olha no espelho. O ar fica preso na faringe, não consegue expirar, logo depois não consegue inspirar; um frio invernal domina o estômago. Há um velho no espelho. E o velho é ele. A cabeleira completamente esbranquiçada, dezenas (podem ser centenas) de fios brancos pulam pelo queixo. Só pode ser um pesadelo, o pior pesadelo.
Volta para o quarto, ainda sem saber o que fazer, talvez deitar de novo. Na estante, seus olhos se fixam em outros cabelos brancos; seus filhos adolescentes posam com a vó Helena, sua mãe, no dia do aniversário dela de 70 anos. O telefone toca, deve ser ela, melhor não atender, não conseguiria falar com ninguém, ouvir os parabéns. Pega um chapéu antigo (nunca gostei, coisa de velho) e sai.
Na portaria, Jocimar grita seu nome; não pode ser o atlético morador do 46, sempre vibrando energia. Tony finge não ouvir e se move com dificuldade, mancando do joelho. Alcança a porta da garagem, abre,chega ao carro. Senta, respira fundo, olha o espelho retrovisor. As rugas se multiplicam ao redor dos olhos, parecia perder cinco anos a cada minuto. Joga as revistas masculinas para trás, junto com a raquete de tênis e a roupa da academia. Dá a partida (se não acordar disso, preciso ir no médico, alguém precisa me curar).
O celular toca, o nome da mãe pisca na telinha, ela está ligando do celular (ela sempre gostou de modernidades, de estar plugada, odiava velharias). Tony ignora e acelera. Depois de algumas quadras, mais calmo, pára no semáforo. Ao lado, dentro de um Palio 1.0, uma vasta cabeleira loira se mexe. Ele sorri mais relaxado; ela, bochechas coradas, longos cílios e olhos bem abertos, parece sentir o interesse e se vira.
- Este é o caminho para o Leblon, certo?
Ela sorri mais ainda, com bondade e atenção.
- Sim, o senhor só precisa seguir mais 1 km.
As palavras saem pausadas, com deferência, afeto. O “senhor” congela o sangue, o estômago e o sorriso do velho garanhão. A menina de cabelos sedutores fala como ao avô. Tony acelera, quase canta pneu e vira na primeira esquina.
Minutos depois, estaciona na garagem do escritório, uma casa amarela com muitas janelas, pintadas com um verde suave; plantas rodeiam a construção. Tenta correr, mas o joelho dói agudo, diminui bruscamente o passo e as costas também reclamam. Vai aos fundos da casa e entra pela cozinha. A vista falha, mas deve ser a empregada na pia, lavando a louça. Diz bom dia, ela se vira assustada, mas Tony já saiu do recinto.
Sobe as escadas com dificuldade; gotas de suor pingam da testa e escorrem pelo peito (há de existir um remédio). Cada degrau parece ser o último, os músculos da perna queimam terrivelmente. A maleta lhe pesa dezenas de quilos (é melhor deixar no último degrau, alguém pega depois).
Abre a porta de sua sala, alguém está sentado na sua cadeira. Ela gira, um rosto jovial, cheio de vida, lhe mira a face. Era bela, não devia ter mais de 25 anos. Ela tinha algo dele, só dele; ele a conhecia. Mas de onde?
- Bom dia, Antônio. Feliz Aniversário. Feliz 80 anos.
Reconheceu a voz. Era Helena, sua mãe.
O relógio toca, estridente; uma, duas, três, oito vezes. Finalmente, cansado como quem correu 42km, estica a mão e aperta devagar o botão. Quer jogar na parede, mas a preguiça o domina (sensação esquisita...)
Se arrasta na cama, um pé, a mão empurra para o lado, vem a outra perna, agora a outra mão empurra o corpo para cima. Sentou. Quase dez minutos depois se levanta e se dirige para o banheiro. Aí sente uma pequena pontada no joelho (ah, não precisavam entrar tão na maldade, o gol nem valeu).
Acende a luz e olha no espelho. O ar fica preso na faringe, não consegue expirar, logo depois não consegue inspirar; um frio invernal domina o estômago. Há um velho no espelho. E o velho é ele. A cabeleira completamente esbranquiçada, dezenas (podem ser centenas) de fios brancos pulam pelo queixo. Só pode ser um pesadelo, o pior pesadelo.
Volta para o quarto, ainda sem saber o que fazer, talvez deitar de novo. Na estante, seus olhos se fixam em outros cabelos brancos; seus filhos adolescentes posam com a vó Helena, sua mãe, no dia do aniversário dela de 70 anos. O telefone toca, deve ser ela, melhor não atender, não conseguiria falar com ninguém, ouvir os parabéns. Pega um chapéu antigo (nunca gostei, coisa de velho) e sai.
Na portaria, Jocimar grita seu nome; não pode ser o atlético morador do 46, sempre vibrando energia. Tony finge não ouvir e se move com dificuldade, mancando do joelho. Alcança a porta da garagem, abre,chega ao carro. Senta, respira fundo, olha o espelho retrovisor. As rugas se multiplicam ao redor dos olhos, parecia perder cinco anos a cada minuto. Joga as revistas masculinas para trás, junto com a raquete de tênis e a roupa da academia. Dá a partida (se não acordar disso, preciso ir no médico, alguém precisa me curar).
O celular toca, o nome da mãe pisca na telinha, ela está ligando do celular (ela sempre gostou de modernidades, de estar plugada, odiava velharias). Tony ignora e acelera. Depois de algumas quadras, mais calmo, pára no semáforo. Ao lado, dentro de um Palio 1.0, uma vasta cabeleira loira se mexe. Ele sorri mais relaxado; ela, bochechas coradas, longos cílios e olhos bem abertos, parece sentir o interesse e se vira.
- Este é o caminho para o Leblon, certo?
Ela sorri mais ainda, com bondade e atenção.
- Sim, o senhor só precisa seguir mais 1 km.
As palavras saem pausadas, com deferência, afeto. O “senhor” congela o sangue, o estômago e o sorriso do velho garanhão. A menina de cabelos sedutores fala como ao avô. Tony acelera, quase canta pneu e vira na primeira esquina.
Minutos depois, estaciona na garagem do escritório, uma casa amarela com muitas janelas, pintadas com um verde suave; plantas rodeiam a construção. Tenta correr, mas o joelho dói agudo, diminui bruscamente o passo e as costas também reclamam. Vai aos fundos da casa e entra pela cozinha. A vista falha, mas deve ser a empregada na pia, lavando a louça. Diz bom dia, ela se vira assustada, mas Tony já saiu do recinto.
Sobe as escadas com dificuldade; gotas de suor pingam da testa e escorrem pelo peito (há de existir um remédio). Cada degrau parece ser o último, os músculos da perna queimam terrivelmente. A maleta lhe pesa dezenas de quilos (é melhor deixar no último degrau, alguém pega depois).
Abre a porta de sua sala, alguém está sentado na sua cadeira. Ela gira, um rosto jovial, cheio de vida, lhe mira a face. Era bela, não devia ter mais de 25 anos. Ela tinha algo dele, só dele; ele a conhecia. Mas de onde?
- Bom dia, Antônio. Feliz Aniversário. Feliz 80 anos.
Reconheceu a voz. Era Helena, sua mãe.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Ao Bom Ouvinte as batatas
Hoje Silmara está sozinha em casa. Largou suas coisas pelo caminho e correu para o quarto. Agora a vemos colocar sua camiseta mais surrada, seu moletom quase sem elástico, e as pantufas coloridas. Seu casulo do trabalho está agora jogado sobre a cama desfeita.
Ela prende os cabelos num rabo e sai do quarto suspirando até aterrissar no sofá. Liga a televisão só para dizer que descansou. Zapeia nervosamente todos os canais, mas sabe que nenhum programa vai afastá-la de seus afazeres em casa. Priorizara seu trabalho, o namorado, sua família e seus amigos por toda a semana, agora a casa agonizava por cuidados.
Respira fundo, joga os pés para cima, aproveitando o impulso da descida para levantar-se das almofadas já quentes e macias. A lista que preparara pela manhã era comprida, e cheia de tarefas pouquíssimo prazerosas – para qualquer pessoa que não estivesse tão feliz em tê-las assumido. Saíra da casa dos pais havia pouco tempo, e qualquer atividade em sua própria casa era o símbolo da dedicação para ela mesma.
Na cozinha, arregaça as mangas, olhos fixos nas três panelas e na pilha de pratos – sem falar nos copos e canecas que haviam pipocado como ervas daninhas em sua pia. Não sem uma trilha sonora! Corre à sala e monta uma seleção musical animada para acompanhar a “baixada da Dita”.
Volta-se para a cozinha, mas estaca no primeiro passo. Um som terrível vem do outro lado da sala. Um som intermitente, agudo e assustador. O coração de Silmara dispara. Vemos Silmara fechando os olhos e apertando a boca, virando-se a contragosto para a fonte do som. Desliga sua música. Caminha a passos pesados, arrastando os pés e a bola de ferro que agora dificulta sua locomoção.
- Alô.
É sua amiga, aquela que liga freqüentemente, sempre que tem desavenças com o namorado. Ela dá boa noite a Silmara, ela replica com educada reverência. Já adivinhando o tema da conversa, Silmara pergunta de todos da família, deixando o namorado para o final. Enquanto ganha tempo, agora acompanhamos Silmara correndo com o telefone preso ao ombro. Ela abre o armário da sala, tirando um aparato. Não nos é possível identificá-lo, pois a sala está semi-iluminada.
Ela agora pergunta do namorado da amiga; desde as saudações, Silmara esteve em silêncio, era toda ouvidos.
A amiga começa a história. Silmara deita o telefone sobre o sofá; o aparato ao lado. Silêncio na sala.
Pé ante pé, ela agora mira o relógio no computador. Marcamos 20h30min. Entra na cozinha, faz de conta que arregaça as já levantadas mangas, e inicia a lavagem da louça.
Terminada a primeira tarefa, Silmara começa a preparar seu jantar. Panelas no fogo, separa as roupas a serem lavadas, entre as diversas pilhas no quarto e na área de serviço. Corre silenciosamente até o quarto, guarda as demais roupas, arruma a cama. No escritório, joga fora os papéis da semana, separa as contas ainda não pagas. Volta à sala, dá água às plantinhas já desmaiadas, no caminho olha para o filme que ainda pretende ver, tomando seu vinho. Volta ao relógio: 21h30.
Com novo suspiro, que mantém os ombros tensos, Silmara volta ao sofá. Acende a luz. Agora talvez possamos identificar o aparato ao lado do telefone. Mas Silmara senta-se quase sobre ele, ainda não sabemos do que se trata. Ela pega o telefone, coloca-o ao ouvido.
- ....e é isso, Sil.....difícil né?
Ao que Silmara responde:
- É verdade....paciência, amiga.
- E você?
- Eu estou bem, muita correria no trabalho, o Juliano está bem, meus pais também.
- Ah, que bom.
Um longo bocejo da amiga.
- Bem... hora de jantar! Nos falamos depois, ta?
- Tudo bem. Boa noite.
Silmara desliga o telefone. Toma o aparato nas mãos.
Agora o identificamos: é um gravador.
Silmara testa a fita. Uma hora exata, com “hum’s” gravados a cada 3 minutos aproximadamente.
Ela levanta-se, vai à cozinha, faz seu prato e senta-se em frente à televisão.
Ela prende os cabelos num rabo e sai do quarto suspirando até aterrissar no sofá. Liga a televisão só para dizer que descansou. Zapeia nervosamente todos os canais, mas sabe que nenhum programa vai afastá-la de seus afazeres em casa. Priorizara seu trabalho, o namorado, sua família e seus amigos por toda a semana, agora a casa agonizava por cuidados.
Respira fundo, joga os pés para cima, aproveitando o impulso da descida para levantar-se das almofadas já quentes e macias. A lista que preparara pela manhã era comprida, e cheia de tarefas pouquíssimo prazerosas – para qualquer pessoa que não estivesse tão feliz em tê-las assumido. Saíra da casa dos pais havia pouco tempo, e qualquer atividade em sua própria casa era o símbolo da dedicação para ela mesma.
Na cozinha, arregaça as mangas, olhos fixos nas três panelas e na pilha de pratos – sem falar nos copos e canecas que haviam pipocado como ervas daninhas em sua pia. Não sem uma trilha sonora! Corre à sala e monta uma seleção musical animada para acompanhar a “baixada da Dita”.
Volta-se para a cozinha, mas estaca no primeiro passo. Um som terrível vem do outro lado da sala. Um som intermitente, agudo e assustador. O coração de Silmara dispara. Vemos Silmara fechando os olhos e apertando a boca, virando-se a contragosto para a fonte do som. Desliga sua música. Caminha a passos pesados, arrastando os pés e a bola de ferro que agora dificulta sua locomoção.
- Alô.
É sua amiga, aquela que liga freqüentemente, sempre que tem desavenças com o namorado. Ela dá boa noite a Silmara, ela replica com educada reverência. Já adivinhando o tema da conversa, Silmara pergunta de todos da família, deixando o namorado para o final. Enquanto ganha tempo, agora acompanhamos Silmara correndo com o telefone preso ao ombro. Ela abre o armário da sala, tirando um aparato. Não nos é possível identificá-lo, pois a sala está semi-iluminada.
Ela agora pergunta do namorado da amiga; desde as saudações, Silmara esteve em silêncio, era toda ouvidos.
A amiga começa a história. Silmara deita o telefone sobre o sofá; o aparato ao lado. Silêncio na sala.
Pé ante pé, ela agora mira o relógio no computador. Marcamos 20h30min. Entra na cozinha, faz de conta que arregaça as já levantadas mangas, e inicia a lavagem da louça.
Terminada a primeira tarefa, Silmara começa a preparar seu jantar. Panelas no fogo, separa as roupas a serem lavadas, entre as diversas pilhas no quarto e na área de serviço. Corre silenciosamente até o quarto, guarda as demais roupas, arruma a cama. No escritório, joga fora os papéis da semana, separa as contas ainda não pagas. Volta à sala, dá água às plantinhas já desmaiadas, no caminho olha para o filme que ainda pretende ver, tomando seu vinho. Volta ao relógio: 21h30.
Com novo suspiro, que mantém os ombros tensos, Silmara volta ao sofá. Acende a luz. Agora talvez possamos identificar o aparato ao lado do telefone. Mas Silmara senta-se quase sobre ele, ainda não sabemos do que se trata. Ela pega o telefone, coloca-o ao ouvido.
- ....e é isso, Sil.....difícil né?
Ao que Silmara responde:
- É verdade....paciência, amiga.
- E você?
- Eu estou bem, muita correria no trabalho, o Juliano está bem, meus pais também.
- Ah, que bom.
Um longo bocejo da amiga.
- Bem... hora de jantar! Nos falamos depois, ta?
- Tudo bem. Boa noite.
Silmara desliga o telefone. Toma o aparato nas mãos.
Agora o identificamos: é um gravador.
Silmara testa a fita. Uma hora exata, com “hum’s” gravados a cada 3 minutos aproximadamente.
Ela levanta-se, vai à cozinha, faz seu prato e senta-se em frente à televisão.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Vendedor de sonhos
Horácio Mello fechou a pasta e ficou olhando para frente sem saber se era a hora certa. A sala estava em silêncio quase absoluto; o telefone não tocava, as janelas fechadas não deixavam entrar a brisa e as buzinas dos carros. Só se ouvia o borbulhar da pequena fonte de água na mesa. O executivo levantou subitamente empurrando a cadeira com as pernas; pegou a pasta com as mãos tensas. Havia marcado a reunião com Pedro Meyer às 15 horas e já estava 10 minutos atrasado.
Não era a primeira vez que Horácio tentaria convencer Pedro, o fundador do grupo Meyer, de sua idéia. Pedro estava no ramo de borrachas industriais há 25 anos. As vendas eram boas, cresciam 5% todos os anos, mas os lucros caiam na mesma proporção. Horácio já trabalhava nas empresas Meyer há cinco anos e havia galgado postos; três promoções em menos de três anos. Na diretoria, chegou a um impasse; não conseguiria ir muito longe em uma empresa familiar. A porta da rua era a melhor forma de continuar crescendo na carreira. Mas ele não queria mudar de cidade; não queria nem mesmo mudar de empresa. Queria começar algo novo.
Horácio tinha 38 anos. Começar um empreendimento parecia ousado, mas o engenheiro elétrico de Garça, pequena cidade do interior de São Paulo, sabia que dali em diante ousar seria cada vez mais assustador. Se ainda iria arriscar na vida, na carreira, tinha de ser agora. O executivo pensou nisso tudo enquanto caminhava para a sala de Pedro Meyer no final do corredor. Sorria maquinalmente para as pessoas que passavam, para o gerente, para a secretária.
Enquanto sorria, lembrava de seus planos. Horácio queria fazer algo mais que borrachas. Muito mais. Ele queria fabricar celulares. Havia comentado com Pedro várias vezes que o ramo de telefonia prometia. Poderia fazer parcerias, conseguir financiamentos, criar produtos inovadores. Poderiam criar uma marca nacionalmente conhecida. Poderia ganhar muito dinheiro.
Sempre que Horácio comentava vagamente de seus planos, Pedro era evasivo. Não levava o projeto a sério. Agora Horácio tinha todos os detalhes nas mãos. Havia levantado custos, acionou amigos, detalhou investimentos, sabia da demanda do mercado. Mas, ainda assim, parecia pouco.
A secretária de Pedro sorriu, sem falar nada; apontava a porta como se dissesse sem palavras que o velho patriarca estava esperando. Marcos, o diretor de logística, saía da sala com um olhar superior e um sorriso torto, que ficou mais torto ao quase esbarrar com seu colega de diretoria. Horácio desviou o rosto para baixo e acelerou o passo até colocar a mão na porta. Fechou os olhos, girou a maçaneta e entrou.
Pedro falava no telefone, a cadeira de espaldar alto virada para a janela com vista para o jardim. Horácio caminhou até a cadeira, sentou devagar e jogou a pasta na mesa. Queria barulho, mas a pasta pousou suavemente. Obedecendo a um instinto misterioso, o patriarca girou o corpo para saudar o subordinado. Contou mais uma história sobre o filho estudante agora na Europa e desligou o telefone.
O velho fundador, com a gravata frouxa e suspensórios vermelhos, empurrou a cadeira para trás se reclinando; o movimento pareceu disparar um sorriso largo.
- Meu amigo, vamos resolver isso de uma vez.
- É o que eu quero, respondeu o diretor.
Horácio falou. Planos, idéias, tudo que demorou quase dois anos arquitetando saiu de sua boca em poucos minutos. Atropelava as idéias, esquecia de detalhes, minimizou alguns números. Pedro olhava atento, de boca fechada, às vezes fechava também os olhos. Quando o empreendedor começou a falar dos lucros, o patriarca interrompeu. Não queria ouvir mais.
- Horácio, nós vamos fabricar celulares.
Não era a primeira vez que Horácio tentaria convencer Pedro, o fundador do grupo Meyer, de sua idéia. Pedro estava no ramo de borrachas industriais há 25 anos. As vendas eram boas, cresciam 5% todos os anos, mas os lucros caiam na mesma proporção. Horácio já trabalhava nas empresas Meyer há cinco anos e havia galgado postos; três promoções em menos de três anos. Na diretoria, chegou a um impasse; não conseguiria ir muito longe em uma empresa familiar. A porta da rua era a melhor forma de continuar crescendo na carreira. Mas ele não queria mudar de cidade; não queria nem mesmo mudar de empresa. Queria começar algo novo.
Horácio tinha 38 anos. Começar um empreendimento parecia ousado, mas o engenheiro elétrico de Garça, pequena cidade do interior de São Paulo, sabia que dali em diante ousar seria cada vez mais assustador. Se ainda iria arriscar na vida, na carreira, tinha de ser agora. O executivo pensou nisso tudo enquanto caminhava para a sala de Pedro Meyer no final do corredor. Sorria maquinalmente para as pessoas que passavam, para o gerente, para a secretária.
Enquanto sorria, lembrava de seus planos. Horácio queria fazer algo mais que borrachas. Muito mais. Ele queria fabricar celulares. Havia comentado com Pedro várias vezes que o ramo de telefonia prometia. Poderia fazer parcerias, conseguir financiamentos, criar produtos inovadores. Poderiam criar uma marca nacionalmente conhecida. Poderia ganhar muito dinheiro.
Sempre que Horácio comentava vagamente de seus planos, Pedro era evasivo. Não levava o projeto a sério. Agora Horácio tinha todos os detalhes nas mãos. Havia levantado custos, acionou amigos, detalhou investimentos, sabia da demanda do mercado. Mas, ainda assim, parecia pouco.
A secretária de Pedro sorriu, sem falar nada; apontava a porta como se dissesse sem palavras que o velho patriarca estava esperando. Marcos, o diretor de logística, saía da sala com um olhar superior e um sorriso torto, que ficou mais torto ao quase esbarrar com seu colega de diretoria. Horácio desviou o rosto para baixo e acelerou o passo até colocar a mão na porta. Fechou os olhos, girou a maçaneta e entrou.
Pedro falava no telefone, a cadeira de espaldar alto virada para a janela com vista para o jardim. Horácio caminhou até a cadeira, sentou devagar e jogou a pasta na mesa. Queria barulho, mas a pasta pousou suavemente. Obedecendo a um instinto misterioso, o patriarca girou o corpo para saudar o subordinado. Contou mais uma história sobre o filho estudante agora na Europa e desligou o telefone.
O velho fundador, com a gravata frouxa e suspensórios vermelhos, empurrou a cadeira para trás se reclinando; o movimento pareceu disparar um sorriso largo.
- Meu amigo, vamos resolver isso de uma vez.
- É o que eu quero, respondeu o diretor.
Horácio falou. Planos, idéias, tudo que demorou quase dois anos arquitetando saiu de sua boca em poucos minutos. Atropelava as idéias, esquecia de detalhes, minimizou alguns números. Pedro olhava atento, de boca fechada, às vezes fechava também os olhos. Quando o empreendedor começou a falar dos lucros, o patriarca interrompeu. Não queria ouvir mais.
- Horácio, nós vamos fabricar celulares.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Caminho Sinuoso
Marta era uma fada: pés pequenos na sandália da moda, embalavam um andar tinhoso de quem sabe ter seguidores olhares. Os longos cabelos castanhos ondulavam até o quadril farto de ninfeta juvenil. A pele, ai, a pele macia e nova, continha carnes firmes que eu ansiava até o meu último fiozinho de cabelo. E os olhos?! Verdes mares, emoldurados em longos cílios pretos, diziam sempre o que eu queria ouvir. De mãos dadas com Marta, eu podia sentir o calor dos olhares invejosos dos outros homens. Com Marta o amor era melhor porque ela era linda.
Não pude com tanta graça, casei-me com ela. A boneca tinha de ser minha, toda minha, e exibir meu selo de propriedade.
Já com meu troféu em mãos, tratei de cuidá-lo com afinco. Dei-lhe brincos, viagens, filho. Trabalhava sempre pensando nela, doce Marta, linda Marta. Sua beleza florescia, bem-tratada, sempre arrumava um tempo para fazer tratamentos nos longos cabelos castanhos. Seu corpo ganhou formas, é verdade. Mas tinha porte de potranca segura.
No dia-a-dia, sua beleza mudou. Não diminuiu, amadureceu. Cuidava da casa, do nosso filho, de mim, com a mesma destreza com que equilibrava os quadris sobre os saltos. Marta saltou as crises, a adolescência, as perdas e as alegrias.
Ela estava sempre ao meu lado, brilhando seu sorriso enquanto eu chorava. Trouxe-me chás quando perdi o sono por causa do trabalho. Afagou meus cabelos nas noites mal-dormidas. Conheceu o mundo a meu lado, provando comigo das belezas que sempre quis conhecer. Tocava piano para mim, mesmo quando eu não estava prestando atenção, imerso em meus pensamentos. Coordenava a sinfonia de camisas-meias-calças-sapatos-cintos que nem eu sabia existir. Criou meu filho, que cresceu forte e direito nas crenças dela.
Mas num dia cinzento de outono, Marta envelheceu. Secaram sua pele e seu humor. O sal de seus olhos temperou o azedume das palavras, e a Fada não mais estava lá. Nosso filho casara-se no verão, e Marta sentiu-se só, pensei.
Passava os dias chorando, olhava para as paredes como se trouxessem estampada a cara do Junior. Dirigia-se a mim como a um estranho indesejado; o olhar cinza como o dia.
Saí desvairado, procurando uma cura para a amargura da minha fada.
Foi quando Ela apareceu. O mesmo andar sinuoso, carnes firmes e olhar insinuante. Segui-a, hipnotizado. Os cabelos balançavam sobre as ancas bailarinas, a Fada estava ali.
Ela esperou que adormecêssemos para falar comigo.
- Sou eu, me reconhece?
Sim, eu reconhecia o cheiro de ninfa, a frescura juvenil. Brilhava no escuro do quarto barato do motelzinho que encontrei. Não pude reconhecer suas formas, havia apenas a luz e o frescor de juventude no ar.
- Mudei de musa, mude comigo também – sua voz ecoava , era a voz de uma Fada.
Pensei em Marta, dormida no quarto que decoramos juntos, anos atrás. Pensei na vida que tivemos, vi-me sentado ao pé da cama, encurvado e torpe.
- Era você este tempo todo?
- Era... mas cansei. Queria um corpo mais jovem, com anseios e planos. Quero brilhar, provocar, ver e ser vista. Gostei de você. Fique comigo.
Pensei novamente em Marta...minha doce Marta. A Fada estivera com ela quando nos conhecemos. Fora por causa da graça que Ela emprestou, que eu a havia notado.
Marta não era a mesma sem a Fada. Mas eu também não era nada sem Marta.
Não respondi à Fada. Apenas saí, sem olhar para trás.
Não pude com tanta graça, casei-me com ela. A boneca tinha de ser minha, toda minha, e exibir meu selo de propriedade.
Já com meu troféu em mãos, tratei de cuidá-lo com afinco. Dei-lhe brincos, viagens, filho. Trabalhava sempre pensando nela, doce Marta, linda Marta. Sua beleza florescia, bem-tratada, sempre arrumava um tempo para fazer tratamentos nos longos cabelos castanhos. Seu corpo ganhou formas, é verdade. Mas tinha porte de potranca segura.
No dia-a-dia, sua beleza mudou. Não diminuiu, amadureceu. Cuidava da casa, do nosso filho, de mim, com a mesma destreza com que equilibrava os quadris sobre os saltos. Marta saltou as crises, a adolescência, as perdas e as alegrias.
Ela estava sempre ao meu lado, brilhando seu sorriso enquanto eu chorava. Trouxe-me chás quando perdi o sono por causa do trabalho. Afagou meus cabelos nas noites mal-dormidas. Conheceu o mundo a meu lado, provando comigo das belezas que sempre quis conhecer. Tocava piano para mim, mesmo quando eu não estava prestando atenção, imerso em meus pensamentos. Coordenava a sinfonia de camisas-meias-calças-sapatos-cintos que nem eu sabia existir. Criou meu filho, que cresceu forte e direito nas crenças dela.
Mas num dia cinzento de outono, Marta envelheceu. Secaram sua pele e seu humor. O sal de seus olhos temperou o azedume das palavras, e a Fada não mais estava lá. Nosso filho casara-se no verão, e Marta sentiu-se só, pensei.
Passava os dias chorando, olhava para as paredes como se trouxessem estampada a cara do Junior. Dirigia-se a mim como a um estranho indesejado; o olhar cinza como o dia.
Saí desvairado, procurando uma cura para a amargura da minha fada.
Foi quando Ela apareceu. O mesmo andar sinuoso, carnes firmes e olhar insinuante. Segui-a, hipnotizado. Os cabelos balançavam sobre as ancas bailarinas, a Fada estava ali.
Ela esperou que adormecêssemos para falar comigo.
- Sou eu, me reconhece?
Sim, eu reconhecia o cheiro de ninfa, a frescura juvenil. Brilhava no escuro do quarto barato do motelzinho que encontrei. Não pude reconhecer suas formas, havia apenas a luz e o frescor de juventude no ar.
- Mudei de musa, mude comigo também – sua voz ecoava , era a voz de uma Fada.
Pensei em Marta, dormida no quarto que decoramos juntos, anos atrás. Pensei na vida que tivemos, vi-me sentado ao pé da cama, encurvado e torpe.
- Era você este tempo todo?
- Era... mas cansei. Queria um corpo mais jovem, com anseios e planos. Quero brilhar, provocar, ver e ser vista. Gostei de você. Fique comigo.
Pensei novamente em Marta...minha doce Marta. A Fada estivera com ela quando nos conhecemos. Fora por causa da graça que Ela emprestou, que eu a havia notado.
Marta não era a mesma sem a Fada. Mas eu também não era nada sem Marta.
Não respondi à Fada. Apenas saí, sem olhar para trás.
domingo, 30 de dezembro de 2007
Filosofia da clavícula
João pisou firme no tatame; com 1,95m, olhou todos os outros alunos de cima. A camisa branca apertada mostrava o tronco desenhado por anos de musculação; os braços podiam entortar barras de aço. Era o primeiro dia de aula.
Sete alunos conversavam; João puxou papo, perguntou se o professor era bom. Mestre Patinho apareceu e pediu, baixinho, para os alunos entrarem em formação. A sala era grande e bem iluminada; os espelhos nas paredes aumentavam a sensação de espaço. Na parede sem espelhos, quadros de lutadores famosos; no maior deles, quatro lutadores da mesma família sorriam simpáticos.
João se mexeu devagar olhando para o professor; Mestre Patinho era magricela, sorria de maneira suave. A montanha de músculos olhou bem para baixo quando cumprimentou Patinho (o professor não passava de 1,70m). Voltou para a formação sorrindo com menosprezo.
O Mestre mencionou o novo aluno e achou oportuno falar da sua filosofia. Nada de arrumar brigas na rua, nada de resolver discussões usando a força, nada de usar a arte marcial para machucar os outros. O diálogo era sempre melhor que quebrar um osso.
Patinho ouviu uma risada debochada; era João falando com um aluno ao lado. O Mestre perguntou se havia alguma dúvida.
- Ah, falar é fácil; na teoria tudo é muito bonito. Quero ver me mostrar na prática.
- Eu mostro pra você.
Patinho deu três passos devagar, se aproximou de João. Os alunos riram nervosos; confiavam no professor,mas João era muito grande, um monstro de 130 kg de puro músculo. Não parecia uma pessoa normal, era um robô disfarçado de gente, uma máquina criada para exterminar.
João esperava rindo. Patinho teve de fazer o primeiro movimento, colocou o braço no ombro do grandalhão. O punho enorme se fechou e voou na direção do peito do professor franzino, que girou o corpo e viu o colosso passar raspando. Patinho terminou de girar e passou debaixo do braço da máquina de músculos; torceu o pulso do exterminador enquanto empurrava o ombro e dava uma rasteira em João. Com um estrondo, os dois caíram no tatame. As pernas do Mestre se enrolaram no braço chegando até o pescoço do aluno.
Patinho empurrou o braço de aço para cima, torceu o ombro sem dificuldade, e disse devagar: - Bate no chão.
João resistia; Patinho empurrou de novo, agora com força. A máquina exterminadora berrou e estapeou o tatame com a mão livre. Patinho levantou, com indisfarçável prazer; um pequeno sorriso não desgrudava do rosto. João continuou gritando até que outro professor veio e colocou no lugar a clavícula deslocada.
Patinho ficou olhando a parede, de costas para os alunos, até conseguir tirar o sorriso. Virou para a classe e falou da importância de evitar uma briga. Nada de quebrar ossos, conversar é melhor. Olhou para João, no chão, mas já com a clavícula no lugar (e nenhum osso quebrado) e avisou que não queria esse tipo de aluno na academia. Patinho era convincente.
João voltou dois meses depois para a academia. Está lá há quatro anos; é o melhor aluno. Patinho gosta dele, mas sempre avisa que se brigar na rua, será expulso da academia. João briga pouco; quase sempre em outras cidades ou em lugares distantes de Patinho. Nesses lugares, ele não usa a filosofia do Mestre. Nada de deslocar clavículas; João quebra ossos.
Sete alunos conversavam; João puxou papo, perguntou se o professor era bom. Mestre Patinho apareceu e pediu, baixinho, para os alunos entrarem em formação. A sala era grande e bem iluminada; os espelhos nas paredes aumentavam a sensação de espaço. Na parede sem espelhos, quadros de lutadores famosos; no maior deles, quatro lutadores da mesma família sorriam simpáticos.
João se mexeu devagar olhando para o professor; Mestre Patinho era magricela, sorria de maneira suave. A montanha de músculos olhou bem para baixo quando cumprimentou Patinho (o professor não passava de 1,70m). Voltou para a formação sorrindo com menosprezo.
O Mestre mencionou o novo aluno e achou oportuno falar da sua filosofia. Nada de arrumar brigas na rua, nada de resolver discussões usando a força, nada de usar a arte marcial para machucar os outros. O diálogo era sempre melhor que quebrar um osso.
Patinho ouviu uma risada debochada; era João falando com um aluno ao lado. O Mestre perguntou se havia alguma dúvida.
- Ah, falar é fácil; na teoria tudo é muito bonito. Quero ver me mostrar na prática.
- Eu mostro pra você.
Patinho deu três passos devagar, se aproximou de João. Os alunos riram nervosos; confiavam no professor,mas João era muito grande, um monstro de 130 kg de puro músculo. Não parecia uma pessoa normal, era um robô disfarçado de gente, uma máquina criada para exterminar.
João esperava rindo. Patinho teve de fazer o primeiro movimento, colocou o braço no ombro do grandalhão. O punho enorme se fechou e voou na direção do peito do professor franzino, que girou o corpo e viu o colosso passar raspando. Patinho terminou de girar e passou debaixo do braço da máquina de músculos; torceu o pulso do exterminador enquanto empurrava o ombro e dava uma rasteira em João. Com um estrondo, os dois caíram no tatame. As pernas do Mestre se enrolaram no braço chegando até o pescoço do aluno.
Patinho empurrou o braço de aço para cima, torceu o ombro sem dificuldade, e disse devagar: - Bate no chão.
João resistia; Patinho empurrou de novo, agora com força. A máquina exterminadora berrou e estapeou o tatame com a mão livre. Patinho levantou, com indisfarçável prazer; um pequeno sorriso não desgrudava do rosto. João continuou gritando até que outro professor veio e colocou no lugar a clavícula deslocada.
Patinho ficou olhando a parede, de costas para os alunos, até conseguir tirar o sorriso. Virou para a classe e falou da importância de evitar uma briga. Nada de quebrar ossos, conversar é melhor. Olhou para João, no chão, mas já com a clavícula no lugar (e nenhum osso quebrado) e avisou que não queria esse tipo de aluno na academia. Patinho era convincente.
João voltou dois meses depois para a academia. Está lá há quatro anos; é o melhor aluno. Patinho gosta dele, mas sempre avisa que se brigar na rua, será expulso da academia. João briga pouco; quase sempre em outras cidades ou em lugares distantes de Patinho. Nesses lugares, ele não usa a filosofia do Mestre. Nada de deslocar clavículas; João quebra ossos.
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