quarta-feira, 23 de abril de 2008

Um pente, um endereço

Um pente de bolso e um pedaço de papel de pão com um endereço anotado: São Roque. Jovino olhou rapidamente para os dois itens que não podia esquecer. Não era difícil, pois não havia mais nada sobre a lata de tinta vazia que servia como mesa. Sua bagagem sobressaía-lhe aos olhos, em meio ao barraco semi-vazio. No canto direito, apenas o fogareiro de esmalte azul descascado, uma panela amassada com o resto do feijão do café da manhã. No canto esquerdo, a cadeira de madeira e palha, seu único pertence trazido de Garanhuns. Presente de sua querida irmã. Teria ela guardado em São Roque as outras 3 cadeiras do jogo? Jovino esperava que sim. Havia ajudado a fazê-las com suas mãozinhas de saudosos 4 anos, olhos atentos ao trabalho da mãe artesã. Sua única lembrança dela.
Sentiu um calafrio.
À frente, a porta deixava passar a luz do mundo, iluminando em cheio sua bagagem. Sentado em seu colchão, de frente para a porta, agora só precisava colocar o pente e o endereço no bolso.
Penteou novamente os cabelos brancos, deu uma última olhada no caco de vidro sobre a bacia de água ao lado da cadeira.
Estava alinhado.
Enfiou o pente no bolso da camisa, o endereço no bolso da calça. Cuidou para colocar no bolso de trás, o da frente tinha um furo do tamanho de seu punho.
Passou o cadeado no ferrolho enferrujado. Apertou os olhos azuis para acostumá-los à claridade.
São Roque não deve ser longe. Na saída do Heliópolis, parou no boteco do Jonas para tomar informação.
Sueli e suas ancas saíam do bar. Os olhos de Jonas foram junto. A figura atarracada de Jovino cortou o fio que havia colado a vista de Jonas ao traseiro de Sueli.
- Fala, Jovino - cantos de boca puxados, olhar de peixe-morto, Jonas esticava o pescoço para tentar olhar por cima do ombro do viajante.
- Como é que eu chego em São Roque?
- Como é que eu vou saber? Eu lá tenho cara de posto de informação? Vai pro terminal que eles te ensinam, pô!
- Onde?
- Barra Funda, rapaz. Vai um trago antes?
- Brigado, fica pra volta. Guarda prá noite.
Jovino saiu andando. Cabeça baixa, só levantava para checar as placas. Mal havia começado, e o dia já estava quente. Pensou no que a irmã prepararia para o seu almoço.
Nada de placas para a Barra Funda.
Lá pelas 11 horas, já cansado, mas penteado, parou numa oficina. Disseram-lhe que pegasse o metrô, era muito longe para ir a pé.
Jovino não tinha idéia do tamanho da cidade, não tinha andado nem um décimo do caminho. O homem deu-lhe R$5,00 - Pega o metrô ali adiante.
Jovino andou. Pensou no mecânico gordo que lhe dera o dinheiro. Gordo daquele jeito, tudo deve ser longe pra ele. E passou direto pelo metrô. E seguiu andando.
Ás três da tarde, faminto, suado e despenteado, parou numa lanchonete.
- Onde fica a Barra Funda? - perguntou à balconista.
- Fica na Zona Norte. Longe.
O que realmente significava longe? - Aveninda Paulista - leu devagar na placa. Devo estar perto, a moça também não sai daqui, nem deve saber.
O cheiro de presunto encheu-lhe as narinas, olhou o misto-quente na chapa. Sua barriga roncou, clamava pelo sanduíche.
Enfiou a mão no bolso, procurando os R$5,00 do mecânico. Diabos, preciso comer. Maldito bolso furado!

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