A visão da árvore através da névoa úmida era muito diferente da noite anterior.
Ontem, toda a sua imponência curvava-se à força dos ventos, chorava folhas arrancadas pela chuva. A grande árvore parecia resignada com sua imobilidade centenária, as raízes que a impediam de fugir e, ironia: de ser arrancada também.
Hoje, sua majestade parecia ainda maior. Estava lá, em seu mesmo posto, mas não era mais uma mártir solitária. Era um monumento. A luz do sol e a brisa fresca faziam-lhe reverência.
Todo o gramado que levava a ela cheirava a bonança. O perfume da terra feliz enchia os pulmões de todos os animais, e sua cor, mais verde que nunca.
Seus galhos dançavam uma coreografia suave e alegre, a música que o vento fazia nas folhas. Em cada uma, as gotas resistentes multiplicavam pássaros num prisma de cor e brilho, as mesmas gotas que se recusavam a misturar ao ar já tão úmido das outras águas esquecidas. Queriam deixar sua marca, refletir cada cor da paisagem.
Nunca houve tantos verdes, pois a água não os havia levado, mas, sim, lavado de cores novas e frescas.
Em cada galho, cada reentrância da grande casa, a vida ressurgia de onde ontem parecia haver apenas desespero - ou ausência. Pássaros celebravam a luz e semeavam a próxima semente. Pequenos insetos sorviam o banquete que a árvore lhes oferecia, numa grande celebração. Esquilos divertiam-se encurtando a vida das gotas-espelho, emaranhando-se entre os galhos.
A vida voltava à grande árvore. Ela e cada parte dela pareciam conscientes, e portanto ainda mais felizes - de que sem a dureza da tempestade, não seriam capazes de sentir à plenitude , a beleza de um dia de sol.
sábado, 28 de julho de 2007
sexta-feira, 27 de julho de 2007
Luz e sombras
Fechou a porta, prendeu o dedo. A dor fez esquecer a fome, a conta a pagar e até o sono. Derrubou a pasta, pensou três nomes bonitos, um saiu baixinho. Respirou, contou até seis, não precisou chegar no dez. Acelerou o passo. Se chegasse agora no compromisso, ainda estaria atrasado. Empurrou a porta do elevador, viu o aguaceiro. Não dava tempo, vai sem guarda-chuva. Alcançou o táxi, lá se vão mais vinte reais. Não sabe chegar na Paulista? Depois de muito explicar, encostou no hotel. Na porta, as pessoas já saíam. Entrou rápido, pegou uma pasta, conversou com duas pessoas e foi embora. Rumo ao escritório, lembrou que precisava arranjar algo para mastigar. Conseguiu ainda ver o chefe entrando pela outra porta, correu pela da esquerda. Passou a catraca, aproveitou o elevador que se fechava, apinhado de gente. Abriu de novo, ele entrou olhando feio. Sentou na mesa, o estômago reclamava. Duas mensagens, cliente e o chefe, avisavam que a concorrência levou o contrato do ano. Levantou e resolveu procurar um lugar para comer. No restaurante, era legumes e feijão. Pegou meia colher de arroz e encontrou um resto de picadinho. De volta na mesa do escritório, o telefone tocou. Uma voz se identificava como cobrador, dando o último aviso. Colocou no gancho, fechou os olhos, pedindo concentração. Correu para terminar o relatório, só precisava a última revisada. A tela ficou preta, olhou em volta, a luz piscou. O computador ligava de novo sozinho. Não havia salvo o arquivo. Esperou calmamente. Um, dois, três. Abriu. Nada. Tudo vazio. Em meio ao desespero, lembrou de uma cópia semi-pronta no notebook. Correu para casa. Entrou, abriu a máquina. Lá estava. Bateu nas teclas, febril. Gravava a cada minuto. Fechou. Abriu o e-mail. Anexou. Falhou. Sem entender, percebeu a luz vermelha do modem. Lembrou da loja no térreo. Levou o arquivo, enviou, com uma mensagem no e-mail pedindo desculpas. O dia terminava, as nuvens se afastavam. Um pouco de luz ainda havia encontrado tempo para bater em seu rosto. Ele sorria. A vida é feita de contrastes, luz e sombras. Se você nunca teve dias ruins, como vai saber se viveu dias bons?
terça-feira, 24 de julho de 2007
Onde o Céu encontra o Mar
-Que bom, então você está feliz?
A pergunta da amiga rasgou a tranquila superfície. Procurou se esquivar da idéia de pensar nisso, mas a questão pairava sobre sua aparente alegria.
Seus dias - seus anos - vinham sendo felizes - não vinham?
Saiu do café sem lembrar o que havia dito à amiga. Talvez nem tenha respondido à pergunta, tenha mudado de assunto. Caminhou sem rumo, se esqueceu de tudo o mais que tinha a fazer. A pergunta na cabeça.
Sentia um vácuo....um vazio que não sabia como preencher. Percebeu que nunca se havia perguntado sobre a felicidade. Fechou os olhos, vasculhando suas memórias, pensando no que havia conquistado. Nada. A pergunta na cabeça.
Sentou-se no banco à beira-mar. Brisa quente, burburinho das pessoas, dos carros. Uma criança ria, uma onda quebrava. Sentiu-se só.
Quis compartilhar o abraço do vento. Quis dividir o vazio trazido pela pergunta. A pergunta na cabeça.
Lembrou do tempo em que sapatos novos desafogavam suas mágoas, quando a promoção a levou ao êxtase, revisitou o apartamento novo. A pergunta na cabeça.
Esquecera-se de seus sonhos de criança, do sorriso bobo, do sabor do chocolate comunitário, do cheiro de suor feliz, das risadas de cócegas, das horas falando sem medo, sentindo sem culpa. A pergunta na cabeça.
Quis um sorriso numa exposição. Desejou uma palavra numa desilusão. Almejou um passeio sem compromisso, um amanhecer preguiçoso, a devoção do amor perdido e inédito. Não era feliz.
Levantou-se, caminhou até a água e olhou o horizonte.
Mas onde o céu encontra o mar é tão longe...
A pergunta da amiga rasgou a tranquila superfície. Procurou se esquivar da idéia de pensar nisso, mas a questão pairava sobre sua aparente alegria.
Seus dias - seus anos - vinham sendo felizes - não vinham?
Saiu do café sem lembrar o que havia dito à amiga. Talvez nem tenha respondido à pergunta, tenha mudado de assunto. Caminhou sem rumo, se esqueceu de tudo o mais que tinha a fazer. A pergunta na cabeça.
Sentia um vácuo....um vazio que não sabia como preencher. Percebeu que nunca se havia perguntado sobre a felicidade. Fechou os olhos, vasculhando suas memórias, pensando no que havia conquistado. Nada. A pergunta na cabeça.
Sentou-se no banco à beira-mar. Brisa quente, burburinho das pessoas, dos carros. Uma criança ria, uma onda quebrava. Sentiu-se só.
Quis compartilhar o abraço do vento. Quis dividir o vazio trazido pela pergunta. A pergunta na cabeça.
Lembrou do tempo em que sapatos novos desafogavam suas mágoas, quando a promoção a levou ao êxtase, revisitou o apartamento novo. A pergunta na cabeça.
Esquecera-se de seus sonhos de criança, do sorriso bobo, do sabor do chocolate comunitário, do cheiro de suor feliz, das risadas de cócegas, das horas falando sem medo, sentindo sem culpa. A pergunta na cabeça.
Quis um sorriso numa exposição. Desejou uma palavra numa desilusão. Almejou um passeio sem compromisso, um amanhecer preguiçoso, a devoção do amor perdido e inédito. Não era feliz.
Levantou-se, caminhou até a água e olhou o horizonte.
Mas onde o céu encontra o mar é tão longe...
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Gorgeous
Passava das seis da manhã e era a quarta vez que o menino abria o olho. Abria pouco, olho puxado. A preguiça lentamente deixava o corpo. Os pais chamavam insistentes, pouco tolerantes. Sabiam que se a herança valesse, o garoto seria sempre preguiçoso. No dia anterior, havia ficado até tarde conversando com os amigos na internet. Depois, ainda pediu que lhe contassem uma história. Não dormiu no meio, essa atividade sempre o deixava desperto. Agora era difícil levantar. O pai já ameaçava jogar água no rosto, tinha de ser rápido. O cabelo liso não precisava pentear, escovou os dentes ligeiro, a mãe reclamou. Retrucou em inglês, bem britânico como ela gostava, fazendo charme. Brincou com a boxer, rolou no chão antes de pôr a camisa. Depois sujaria. Subiu com esforço na cadeira de adulto para ver melhor o que tinha para comer. Sem tempo, passou requeijão em dois pães, deixou cair na toalha. A mãe empurrou a maçã. O pai beijava e apertava, antecipando a saudade. Não era dele a vez de levar à escola. A porta abriu, o menino correu atrás gritando e repetindo a frase aprendida no dia anterior: “I am gooorgeous”.
sexta-feira, 13 de julho de 2007
A noite
Há! A hora de dormir....nunca fui submetida a uma das máximas maternas mais comuns nas boas famílias brasileiras: "hora de ir pra cama". Mesmo porque, esta hora nunca foi muito definida na MINHA família. Não que ela não seja uma boa família, claro. Sempre me perguntei se a minha briga com o relógio, principalmente nas últimas horas de vigília, era fenotípica ou genotípica mesmo. Porque nunca - nem quando bebezinha - gostei de acordar cedo. Que dirá dormir cedo... tanta coisa pra fazer, justamente na hora em que as minhas idéias estão mais claras (ou menos confusas)! A ver: conversa com a alma gêmea, filmes, livros, revistas, internet, afazeres domésticos (pobre vizinha...), rabichos esquecidos nas horas de torpor matutino - ou de leseira vespertina....listas a tentar cumprir na manhã seguinte, planos para o fim de semana, para o ano, para a vida - e a minha oração. Deus que me perdoe. Quase sempre a oração fica pela metade, afogada no sono que teimo em espremer em poucas e desesperadas horas. Mas gosto da noite. Ela sempre foi boa companheira. É por ela que corro todo o meu dia. É para ela que correm todos os meus dias.
Noite aconchegante, noite convergente (escrevam o que digo, esta palavra será a "reengenharia" ou o "downsizing" do momento), noite promissora, noite curta....vida longa à noite!
Noite aconchegante, noite convergente (escrevam o que digo, esta palavra será a "reengenharia" ou o "downsizing" do momento), noite promissora, noite curta....vida longa à noite!
quinta-feira, 5 de julho de 2007
Encontro raro
O líquido vermelho brilha na taça pousada no braço do sofá. Bem perto, sai a fumaça, que faz uma pirueta e desenha uma trajetória em direção a janela, vento ensinado. Ela passa em frente à televisão, que guarda suspensa uma cena, congelada há horas. Ao som de um sorriso (ou um suspiro), o animal levanta o focinho e uma das orelhas, tenta entender o sentimento humano. Sorrisos adolescentes, roçar dos cílios, a noite já não é mais uma criança. Em pouco tempo, os primeiros raios vão abrir caminho e interromper o reencontro. A alma, um dia cindida pelos deuses gregos, se prepara para se despedir de seu reflexo.
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