quinta-feira, 19 de julho de 2007
Gorgeous
Passava das seis da manhã e era a quarta vez que o menino abria o olho. Abria pouco, olho puxado. A preguiça lentamente deixava o corpo. Os pais chamavam insistentes, pouco tolerantes. Sabiam que se a herança valesse, o garoto seria sempre preguiçoso. No dia anterior, havia ficado até tarde conversando com os amigos na internet. Depois, ainda pediu que lhe contassem uma história. Não dormiu no meio, essa atividade sempre o deixava desperto. Agora era difícil levantar. O pai já ameaçava jogar água no rosto, tinha de ser rápido. O cabelo liso não precisava pentear, escovou os dentes ligeiro, a mãe reclamou. Retrucou em inglês, bem britânico como ela gostava, fazendo charme. Brincou com a boxer, rolou no chão antes de pôr a camisa. Depois sujaria. Subiu com esforço na cadeira de adulto para ver melhor o que tinha para comer. Sem tempo, passou requeijão em dois pães, deixou cair na toalha. A mãe empurrou a maçã. O pai beijava e apertava, antecipando a saudade. Não era dele a vez de levar à escola. A porta abriu, o menino correu atrás gritando e repetindo a frase aprendida no dia anterior: “I am gooorgeous”.
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