Hoje Silmara está sozinha em casa. Largou suas coisas pelo caminho e correu para o quarto. Agora a vemos colocar sua camiseta mais surrada, seu moletom quase sem elástico, e as pantufas coloridas. Seu casulo do trabalho está agora jogado sobre a cama desfeita.
Ela prende os cabelos num rabo e sai do quarto suspirando até aterrissar no sofá. Liga a televisão só para dizer que descansou. Zapeia nervosamente todos os canais, mas sabe que nenhum programa vai afastá-la de seus afazeres em casa. Priorizara seu trabalho, o namorado, sua família e seus amigos por toda a semana, agora a casa agonizava por cuidados.
Respira fundo, joga os pés para cima, aproveitando o impulso da descida para levantar-se das almofadas já quentes e macias. A lista que preparara pela manhã era comprida, e cheia de tarefas pouquíssimo prazerosas – para qualquer pessoa que não estivesse tão feliz em tê-las assumido. Saíra da casa dos pais havia pouco tempo, e qualquer atividade em sua própria casa era o símbolo da dedicação para ela mesma.
Na cozinha, arregaça as mangas, olhos fixos nas três panelas e na pilha de pratos – sem falar nos copos e canecas que haviam pipocado como ervas daninhas em sua pia. Não sem uma trilha sonora! Corre à sala e monta uma seleção musical animada para acompanhar a “baixada da Dita”.
Volta-se para a cozinha, mas estaca no primeiro passo. Um som terrível vem do outro lado da sala. Um som intermitente, agudo e assustador. O coração de Silmara dispara. Vemos Silmara fechando os olhos e apertando a boca, virando-se a contragosto para a fonte do som. Desliga sua música. Caminha a passos pesados, arrastando os pés e a bola de ferro que agora dificulta sua locomoção.
- Alô.
É sua amiga, aquela que liga freqüentemente, sempre que tem desavenças com o namorado. Ela dá boa noite a Silmara, ela replica com educada reverência. Já adivinhando o tema da conversa, Silmara pergunta de todos da família, deixando o namorado para o final. Enquanto ganha tempo, agora acompanhamos Silmara correndo com o telefone preso ao ombro. Ela abre o armário da sala, tirando um aparato. Não nos é possível identificá-lo, pois a sala está semi-iluminada.
Ela agora pergunta do namorado da amiga; desde as saudações, Silmara esteve em silêncio, era toda ouvidos.
A amiga começa a história. Silmara deita o telefone sobre o sofá; o aparato ao lado. Silêncio na sala.
Pé ante pé, ela agora mira o relógio no computador. Marcamos 20h30min. Entra na cozinha, faz de conta que arregaça as já levantadas mangas, e inicia a lavagem da louça.
Terminada a primeira tarefa, Silmara começa a preparar seu jantar. Panelas no fogo, separa as roupas a serem lavadas, entre as diversas pilhas no quarto e na área de serviço. Corre silenciosamente até o quarto, guarda as demais roupas, arruma a cama. No escritório, joga fora os papéis da semana, separa as contas ainda não pagas. Volta à sala, dá água às plantinhas já desmaiadas, no caminho olha para o filme que ainda pretende ver, tomando seu vinho. Volta ao relógio: 21h30.
Com novo suspiro, que mantém os ombros tensos, Silmara volta ao sofá. Acende a luz. Agora talvez possamos identificar o aparato ao lado do telefone. Mas Silmara senta-se quase sobre ele, ainda não sabemos do que se trata. Ela pega o telefone, coloca-o ao ouvido.
- ....e é isso, Sil.....difícil né?
Ao que Silmara responde:
- É verdade....paciência, amiga.
- E você?
- Eu estou bem, muita correria no trabalho, o Juliano está bem, meus pais também.
- Ah, que bom.
Um longo bocejo da amiga.
- Bem... hora de jantar! Nos falamos depois, ta?
- Tudo bem. Boa noite.
Silmara desliga o telefone. Toma o aparato nas mãos.
Agora o identificamos: é um gravador.
Silmara testa a fita. Uma hora exata, com “hum’s” gravados a cada 3 minutos aproximadamente.
Ela levanta-se, vai à cozinha, faz seu prato e senta-se em frente à televisão.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Vendedor de sonhos
Horácio Mello fechou a pasta e ficou olhando para frente sem saber se era a hora certa. A sala estava em silêncio quase absoluto; o telefone não tocava, as janelas fechadas não deixavam entrar a brisa e as buzinas dos carros. Só se ouvia o borbulhar da pequena fonte de água na mesa. O executivo levantou subitamente empurrando a cadeira com as pernas; pegou a pasta com as mãos tensas. Havia marcado a reunião com Pedro Meyer às 15 horas e já estava 10 minutos atrasado.
Não era a primeira vez que Horácio tentaria convencer Pedro, o fundador do grupo Meyer, de sua idéia. Pedro estava no ramo de borrachas industriais há 25 anos. As vendas eram boas, cresciam 5% todos os anos, mas os lucros caiam na mesma proporção. Horácio já trabalhava nas empresas Meyer há cinco anos e havia galgado postos; três promoções em menos de três anos. Na diretoria, chegou a um impasse; não conseguiria ir muito longe em uma empresa familiar. A porta da rua era a melhor forma de continuar crescendo na carreira. Mas ele não queria mudar de cidade; não queria nem mesmo mudar de empresa. Queria começar algo novo.
Horácio tinha 38 anos. Começar um empreendimento parecia ousado, mas o engenheiro elétrico de Garça, pequena cidade do interior de São Paulo, sabia que dali em diante ousar seria cada vez mais assustador. Se ainda iria arriscar na vida, na carreira, tinha de ser agora. O executivo pensou nisso tudo enquanto caminhava para a sala de Pedro Meyer no final do corredor. Sorria maquinalmente para as pessoas que passavam, para o gerente, para a secretária.
Enquanto sorria, lembrava de seus planos. Horácio queria fazer algo mais que borrachas. Muito mais. Ele queria fabricar celulares. Havia comentado com Pedro várias vezes que o ramo de telefonia prometia. Poderia fazer parcerias, conseguir financiamentos, criar produtos inovadores. Poderiam criar uma marca nacionalmente conhecida. Poderia ganhar muito dinheiro.
Sempre que Horácio comentava vagamente de seus planos, Pedro era evasivo. Não levava o projeto a sério. Agora Horácio tinha todos os detalhes nas mãos. Havia levantado custos, acionou amigos, detalhou investimentos, sabia da demanda do mercado. Mas, ainda assim, parecia pouco.
A secretária de Pedro sorriu, sem falar nada; apontava a porta como se dissesse sem palavras que o velho patriarca estava esperando. Marcos, o diretor de logística, saía da sala com um olhar superior e um sorriso torto, que ficou mais torto ao quase esbarrar com seu colega de diretoria. Horácio desviou o rosto para baixo e acelerou o passo até colocar a mão na porta. Fechou os olhos, girou a maçaneta e entrou.
Pedro falava no telefone, a cadeira de espaldar alto virada para a janela com vista para o jardim. Horácio caminhou até a cadeira, sentou devagar e jogou a pasta na mesa. Queria barulho, mas a pasta pousou suavemente. Obedecendo a um instinto misterioso, o patriarca girou o corpo para saudar o subordinado. Contou mais uma história sobre o filho estudante agora na Europa e desligou o telefone.
O velho fundador, com a gravata frouxa e suspensórios vermelhos, empurrou a cadeira para trás se reclinando; o movimento pareceu disparar um sorriso largo.
- Meu amigo, vamos resolver isso de uma vez.
- É o que eu quero, respondeu o diretor.
Horácio falou. Planos, idéias, tudo que demorou quase dois anos arquitetando saiu de sua boca em poucos minutos. Atropelava as idéias, esquecia de detalhes, minimizou alguns números. Pedro olhava atento, de boca fechada, às vezes fechava também os olhos. Quando o empreendedor começou a falar dos lucros, o patriarca interrompeu. Não queria ouvir mais.
- Horácio, nós vamos fabricar celulares.
Não era a primeira vez que Horácio tentaria convencer Pedro, o fundador do grupo Meyer, de sua idéia. Pedro estava no ramo de borrachas industriais há 25 anos. As vendas eram boas, cresciam 5% todos os anos, mas os lucros caiam na mesma proporção. Horácio já trabalhava nas empresas Meyer há cinco anos e havia galgado postos; três promoções em menos de três anos. Na diretoria, chegou a um impasse; não conseguiria ir muito longe em uma empresa familiar. A porta da rua era a melhor forma de continuar crescendo na carreira. Mas ele não queria mudar de cidade; não queria nem mesmo mudar de empresa. Queria começar algo novo.
Horácio tinha 38 anos. Começar um empreendimento parecia ousado, mas o engenheiro elétrico de Garça, pequena cidade do interior de São Paulo, sabia que dali em diante ousar seria cada vez mais assustador. Se ainda iria arriscar na vida, na carreira, tinha de ser agora. O executivo pensou nisso tudo enquanto caminhava para a sala de Pedro Meyer no final do corredor. Sorria maquinalmente para as pessoas que passavam, para o gerente, para a secretária.
Enquanto sorria, lembrava de seus planos. Horácio queria fazer algo mais que borrachas. Muito mais. Ele queria fabricar celulares. Havia comentado com Pedro várias vezes que o ramo de telefonia prometia. Poderia fazer parcerias, conseguir financiamentos, criar produtos inovadores. Poderiam criar uma marca nacionalmente conhecida. Poderia ganhar muito dinheiro.
Sempre que Horácio comentava vagamente de seus planos, Pedro era evasivo. Não levava o projeto a sério. Agora Horácio tinha todos os detalhes nas mãos. Havia levantado custos, acionou amigos, detalhou investimentos, sabia da demanda do mercado. Mas, ainda assim, parecia pouco.
A secretária de Pedro sorriu, sem falar nada; apontava a porta como se dissesse sem palavras que o velho patriarca estava esperando. Marcos, o diretor de logística, saía da sala com um olhar superior e um sorriso torto, que ficou mais torto ao quase esbarrar com seu colega de diretoria. Horácio desviou o rosto para baixo e acelerou o passo até colocar a mão na porta. Fechou os olhos, girou a maçaneta e entrou.
Pedro falava no telefone, a cadeira de espaldar alto virada para a janela com vista para o jardim. Horácio caminhou até a cadeira, sentou devagar e jogou a pasta na mesa. Queria barulho, mas a pasta pousou suavemente. Obedecendo a um instinto misterioso, o patriarca girou o corpo para saudar o subordinado. Contou mais uma história sobre o filho estudante agora na Europa e desligou o telefone.
O velho fundador, com a gravata frouxa e suspensórios vermelhos, empurrou a cadeira para trás se reclinando; o movimento pareceu disparar um sorriso largo.
- Meu amigo, vamos resolver isso de uma vez.
- É o que eu quero, respondeu o diretor.
Horácio falou. Planos, idéias, tudo que demorou quase dois anos arquitetando saiu de sua boca em poucos minutos. Atropelava as idéias, esquecia de detalhes, minimizou alguns números. Pedro olhava atento, de boca fechada, às vezes fechava também os olhos. Quando o empreendedor começou a falar dos lucros, o patriarca interrompeu. Não queria ouvir mais.
- Horácio, nós vamos fabricar celulares.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Caminho Sinuoso
Marta era uma fada: pés pequenos na sandália da moda, embalavam um andar tinhoso de quem sabe ter seguidores olhares. Os longos cabelos castanhos ondulavam até o quadril farto de ninfeta juvenil. A pele, ai, a pele macia e nova, continha carnes firmes que eu ansiava até o meu último fiozinho de cabelo. E os olhos?! Verdes mares, emoldurados em longos cílios pretos, diziam sempre o que eu queria ouvir. De mãos dadas com Marta, eu podia sentir o calor dos olhares invejosos dos outros homens. Com Marta o amor era melhor porque ela era linda.
Não pude com tanta graça, casei-me com ela. A boneca tinha de ser minha, toda minha, e exibir meu selo de propriedade.
Já com meu troféu em mãos, tratei de cuidá-lo com afinco. Dei-lhe brincos, viagens, filho. Trabalhava sempre pensando nela, doce Marta, linda Marta. Sua beleza florescia, bem-tratada, sempre arrumava um tempo para fazer tratamentos nos longos cabelos castanhos. Seu corpo ganhou formas, é verdade. Mas tinha porte de potranca segura.
No dia-a-dia, sua beleza mudou. Não diminuiu, amadureceu. Cuidava da casa, do nosso filho, de mim, com a mesma destreza com que equilibrava os quadris sobre os saltos. Marta saltou as crises, a adolescência, as perdas e as alegrias.
Ela estava sempre ao meu lado, brilhando seu sorriso enquanto eu chorava. Trouxe-me chás quando perdi o sono por causa do trabalho. Afagou meus cabelos nas noites mal-dormidas. Conheceu o mundo a meu lado, provando comigo das belezas que sempre quis conhecer. Tocava piano para mim, mesmo quando eu não estava prestando atenção, imerso em meus pensamentos. Coordenava a sinfonia de camisas-meias-calças-sapatos-cintos que nem eu sabia existir. Criou meu filho, que cresceu forte e direito nas crenças dela.
Mas num dia cinzento de outono, Marta envelheceu. Secaram sua pele e seu humor. O sal de seus olhos temperou o azedume das palavras, e a Fada não mais estava lá. Nosso filho casara-se no verão, e Marta sentiu-se só, pensei.
Passava os dias chorando, olhava para as paredes como se trouxessem estampada a cara do Junior. Dirigia-se a mim como a um estranho indesejado; o olhar cinza como o dia.
Saí desvairado, procurando uma cura para a amargura da minha fada.
Foi quando Ela apareceu. O mesmo andar sinuoso, carnes firmes e olhar insinuante. Segui-a, hipnotizado. Os cabelos balançavam sobre as ancas bailarinas, a Fada estava ali.
Ela esperou que adormecêssemos para falar comigo.
- Sou eu, me reconhece?
Sim, eu reconhecia o cheiro de ninfa, a frescura juvenil. Brilhava no escuro do quarto barato do motelzinho que encontrei. Não pude reconhecer suas formas, havia apenas a luz e o frescor de juventude no ar.
- Mudei de musa, mude comigo também – sua voz ecoava , era a voz de uma Fada.
Pensei em Marta, dormida no quarto que decoramos juntos, anos atrás. Pensei na vida que tivemos, vi-me sentado ao pé da cama, encurvado e torpe.
- Era você este tempo todo?
- Era... mas cansei. Queria um corpo mais jovem, com anseios e planos. Quero brilhar, provocar, ver e ser vista. Gostei de você. Fique comigo.
Pensei novamente em Marta...minha doce Marta. A Fada estivera com ela quando nos conhecemos. Fora por causa da graça que Ela emprestou, que eu a havia notado.
Marta não era a mesma sem a Fada. Mas eu também não era nada sem Marta.
Não respondi à Fada. Apenas saí, sem olhar para trás.
Não pude com tanta graça, casei-me com ela. A boneca tinha de ser minha, toda minha, e exibir meu selo de propriedade.
Já com meu troféu em mãos, tratei de cuidá-lo com afinco. Dei-lhe brincos, viagens, filho. Trabalhava sempre pensando nela, doce Marta, linda Marta. Sua beleza florescia, bem-tratada, sempre arrumava um tempo para fazer tratamentos nos longos cabelos castanhos. Seu corpo ganhou formas, é verdade. Mas tinha porte de potranca segura.
No dia-a-dia, sua beleza mudou. Não diminuiu, amadureceu. Cuidava da casa, do nosso filho, de mim, com a mesma destreza com que equilibrava os quadris sobre os saltos. Marta saltou as crises, a adolescência, as perdas e as alegrias.
Ela estava sempre ao meu lado, brilhando seu sorriso enquanto eu chorava. Trouxe-me chás quando perdi o sono por causa do trabalho. Afagou meus cabelos nas noites mal-dormidas. Conheceu o mundo a meu lado, provando comigo das belezas que sempre quis conhecer. Tocava piano para mim, mesmo quando eu não estava prestando atenção, imerso em meus pensamentos. Coordenava a sinfonia de camisas-meias-calças-sapatos-cintos que nem eu sabia existir. Criou meu filho, que cresceu forte e direito nas crenças dela.
Mas num dia cinzento de outono, Marta envelheceu. Secaram sua pele e seu humor. O sal de seus olhos temperou o azedume das palavras, e a Fada não mais estava lá. Nosso filho casara-se no verão, e Marta sentiu-se só, pensei.
Passava os dias chorando, olhava para as paredes como se trouxessem estampada a cara do Junior. Dirigia-se a mim como a um estranho indesejado; o olhar cinza como o dia.
Saí desvairado, procurando uma cura para a amargura da minha fada.
Foi quando Ela apareceu. O mesmo andar sinuoso, carnes firmes e olhar insinuante. Segui-a, hipnotizado. Os cabelos balançavam sobre as ancas bailarinas, a Fada estava ali.
Ela esperou que adormecêssemos para falar comigo.
- Sou eu, me reconhece?
Sim, eu reconhecia o cheiro de ninfa, a frescura juvenil. Brilhava no escuro do quarto barato do motelzinho que encontrei. Não pude reconhecer suas formas, havia apenas a luz e o frescor de juventude no ar.
- Mudei de musa, mude comigo também – sua voz ecoava , era a voz de uma Fada.
Pensei em Marta, dormida no quarto que decoramos juntos, anos atrás. Pensei na vida que tivemos, vi-me sentado ao pé da cama, encurvado e torpe.
- Era você este tempo todo?
- Era... mas cansei. Queria um corpo mais jovem, com anseios e planos. Quero brilhar, provocar, ver e ser vista. Gostei de você. Fique comigo.
Pensei novamente em Marta...minha doce Marta. A Fada estivera com ela quando nos conhecemos. Fora por causa da graça que Ela emprestou, que eu a havia notado.
Marta não era a mesma sem a Fada. Mas eu também não era nada sem Marta.
Não respondi à Fada. Apenas saí, sem olhar para trás.
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