sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Vendedor de sonhos

Horácio Mello fechou a pasta e ficou olhando para frente sem saber se era a hora certa. A sala estava em silêncio quase absoluto; o telefone não tocava, as janelas fechadas não deixavam entrar a brisa e as buzinas dos carros. Só se ouvia o borbulhar da pequena fonte de água na mesa. O executivo levantou subitamente empurrando a cadeira com as pernas; pegou a pasta com as mãos tensas. Havia marcado a reunião com Pedro Meyer às 15 horas e já estava 10 minutos atrasado.
Não era a primeira vez que Horácio tentaria convencer Pedro, o fundador do grupo Meyer, de sua idéia. Pedro estava no ramo de borrachas industriais há 25 anos. As vendas eram boas, cresciam 5% todos os anos, mas os lucros caiam na mesma proporção. Horácio já trabalhava nas empresas Meyer há cinco anos e havia galgado postos; três promoções em menos de três anos. Na diretoria, chegou a um impasse; não conseguiria ir muito longe em uma empresa familiar. A porta da rua era a melhor forma de continuar crescendo na carreira. Mas ele não queria mudar de cidade; não queria nem mesmo mudar de empresa. Queria começar algo novo.
Horácio tinha 38 anos. Começar um empreendimento parecia ousado, mas o engenheiro elétrico de Garça, pequena cidade do interior de São Paulo, sabia que dali em diante ousar seria cada vez mais assustador. Se ainda iria arriscar na vida, na carreira, tinha de ser agora. O executivo pensou nisso tudo enquanto caminhava para a sala de Pedro Meyer no final do corredor. Sorria maquinalmente para as pessoas que passavam, para o gerente, para a secretária.
Enquanto sorria, lembrava de seus planos. Horácio queria fazer algo mais que borrachas. Muito mais. Ele queria fabricar celulares. Havia comentado com Pedro várias vezes que o ramo de telefonia prometia. Poderia fazer parcerias, conseguir financiamentos, criar produtos inovadores. Poderiam criar uma marca nacionalmente conhecida. Poderia ganhar muito dinheiro.
Sempre que Horácio comentava vagamente de seus planos, Pedro era evasivo. Não levava o projeto a sério. Agora Horácio tinha todos os detalhes nas mãos. Havia levantado custos, acionou amigos, detalhou investimentos, sabia da demanda do mercado. Mas, ainda assim, parecia pouco.
A secretária de Pedro sorriu, sem falar nada; apontava a porta como se dissesse sem palavras que o velho patriarca estava esperando. Marcos, o diretor de logística, saía da sala com um olhar superior e um sorriso torto, que ficou mais torto ao quase esbarrar com seu colega de diretoria. Horácio desviou o rosto para baixo e acelerou o passo até colocar a mão na porta. Fechou os olhos, girou a maçaneta e entrou.
Pedro falava no telefone, a cadeira de espaldar alto virada para a janela com vista para o jardim. Horácio caminhou até a cadeira, sentou devagar e jogou a pasta na mesa. Queria barulho, mas a pasta pousou suavemente. Obedecendo a um instinto misterioso, o patriarca girou o corpo para saudar o subordinado. Contou mais uma história sobre o filho estudante agora na Europa e desligou o telefone.
O velho fundador, com a gravata frouxa e suspensórios vermelhos, empurrou a cadeira para trás se reclinando; o movimento pareceu disparar um sorriso largo.
- Meu amigo, vamos resolver isso de uma vez.
- É o que eu quero, respondeu o diretor.
Horácio falou. Planos, idéias, tudo que demorou quase dois anos arquitetando saiu de sua boca em poucos minutos. Atropelava as idéias, esquecia de detalhes, minimizou alguns números. Pedro olhava atento, de boca fechada, às vezes fechava também os olhos. Quando o empreendedor começou a falar dos lucros, o patriarca interrompeu. Não queria ouvir mais.
- Horácio, nós vamos fabricar celulares.

5 comentários:

Max Alberto Gonzales disse...

Hehehehe! nada como boas expectativas com ansiedade sendo satisfeitas com uma boa surpresa! bom conto e o da Érica tb!
abs
Max

Discoteca Completa disse...

Gostei bastante dos contos. O da fada, em especial, seduz.

Rogério, andei pensando no papo que tivemos e me lembrei daquele livro do Fernando Morais, "Na Toca dos Leões", que conta a história da W/Brasil. Acho que pode ser uma boa referência para o q vc pretende escrever.

Abs.

Bobie Salles disse...

Hei! Adorei o post. Me lembrou muito a história da Nokia, que antes de celulares, fazia papel higiênico hehehehe
Grande beijo!

P.S.: Ainda esperando vocês em casa :D

Godinho disse...

Tá, confesso. Pensei na Nokia.

Bobie Salles disse...

Mas a história da Nokia é mesmo inspiradora para qualquer coisa. E volto a dizer: adorei o texto.
Bjs,
Bobie.