A visão da árvore através da névoa úmida era muito diferente da noite anterior.
Ontem, toda a sua imponência curvava-se à força dos ventos, chorava folhas arrancadas pela chuva. A grande árvore parecia resignada com sua imobilidade centenária, as raízes que a impediam de fugir e, ironia: de ser arrancada também.
Hoje, sua majestade parecia ainda maior. Estava lá, em seu mesmo posto, mas não era mais uma mártir solitária. Era um monumento. A luz do sol e a brisa fresca faziam-lhe reverência.
Todo o gramado que levava a ela cheirava a bonança. O perfume da terra feliz enchia os pulmões de todos os animais, e sua cor, mais verde que nunca.
Seus galhos dançavam uma coreografia suave e alegre, a música que o vento fazia nas folhas. Em cada uma, as gotas resistentes multiplicavam pássaros num prisma de cor e brilho, as mesmas gotas que se recusavam a misturar ao ar já tão úmido das outras águas esquecidas. Queriam deixar sua marca, refletir cada cor da paisagem.
Nunca houve tantos verdes, pois a água não os havia levado, mas, sim, lavado de cores novas e frescas.
Em cada galho, cada reentrância da grande casa, a vida ressurgia de onde ontem parecia haver apenas desespero - ou ausência. Pássaros celebravam a luz e semeavam a próxima semente. Pequenos insetos sorviam o banquete que a árvore lhes oferecia, numa grande celebração. Esquilos divertiam-se encurtando a vida das gotas-espelho, emaranhando-se entre os galhos.
A vida voltava à grande árvore. Ela e cada parte dela pareciam conscientes, e portanto ainda mais felizes - de que sem a dureza da tempestade, não seriam capazes de sentir à plenitude , a beleza de um dia de sol.
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