sexta-feira, 27 de julho de 2007

Luz e sombras

Fechou a porta, prendeu o dedo. A dor fez esquecer a fome, a conta a pagar e até o sono. Derrubou a pasta, pensou três nomes bonitos, um saiu baixinho. Respirou, contou até seis, não precisou chegar no dez. Acelerou o passo. Se chegasse agora no compromisso, ainda estaria atrasado. Empurrou a porta do elevador, viu o aguaceiro. Não dava tempo, vai sem guarda-chuva. Alcançou o táxi, lá se vão mais vinte reais. Não sabe chegar na Paulista? Depois de muito explicar, encostou no hotel. Na porta, as pessoas já saíam. Entrou rápido, pegou uma pasta, conversou com duas pessoas e foi embora. Rumo ao escritório, lembrou que precisava arranjar algo para mastigar. Conseguiu ainda ver o chefe entrando pela outra porta, correu pela da esquerda. Passou a catraca, aproveitou o elevador que se fechava, apinhado de gente. Abriu de novo, ele entrou olhando feio. Sentou na mesa, o estômago reclamava. Duas mensagens, cliente e o chefe, avisavam que a concorrência levou o contrato do ano. Levantou e resolveu procurar um lugar para comer. No restaurante, era legumes e feijão. Pegou meia colher de arroz e encontrou um resto de picadinho. De volta na mesa do escritório, o telefone tocou. Uma voz se identificava como cobrador, dando o último aviso. Colocou no gancho, fechou os olhos, pedindo concentração. Correu para terminar o relatório, só precisava a última revisada. A tela ficou preta, olhou em volta, a luz piscou. O computador ligava de novo sozinho. Não havia salvo o arquivo. Esperou calmamente. Um, dois, três. Abriu. Nada. Tudo vazio. Em meio ao desespero, lembrou de uma cópia semi-pronta no notebook. Correu para casa. Entrou, abriu a máquina. Lá estava. Bateu nas teclas, febril. Gravava a cada minuto. Fechou. Abriu o e-mail. Anexou. Falhou. Sem entender, percebeu a luz vermelha do modem. Lembrou da loja no térreo. Levou o arquivo, enviou, com uma mensagem no e-mail pedindo desculpas. O dia terminava, as nuvens se afastavam. Um pouco de luz ainda havia encontrado tempo para bater em seu rosto. Ele sorria. A vida é feita de contrastes, luz e sombras. Se você nunca teve dias ruins, como vai saber se viveu dias bons?

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