sexta-feira, 23 de novembro de 2007

O retrato do pecado

A luz do último poste apagou, a calçada estreita escureceu. Júlio andava devagar, os cães latiam, desacostumados ao barulho da rua sem movimento. Parou em frente ao portão, procurou a chave na bolsa cheia de tralhas. Entrou na casa, jogou a bolsa em um canto. Fitou a parede nua, parado no meio da sala, alguns segundos sem querer se mexer. Não havia móveis, dois banquinhos serviam de mesa. Livros espalhados pelo chão, camisas e meias sujas em um saco esperavam pela moça da lavanderia.
Catou as taças de vinho manchadas de vermelho pelo chão; duas delas em cacos atrapalhavam o caminho. Buscou água na cozinha, pegou uma xícara, abriu a torneira, a água escorria enferrujada.
Levantou os papéis amassados em busca do prato para servir de cinzeiro. Embaixo de um dos papéis, o telefone jazia sem bateria (ninguém ligaria mesmo aquele dia, nem nos outros). Acendeu o cigarro, a fumaça dançou pela sala e chegou aos pequenos quadros na parede (se tivessem rostos, eles envelheceriam).
Um torpor se alastrou pelos músculos, Júlio fez uma careta, talvez pela visão vazia da casa, talvez pelo vazio do estômago. Júlio fechou os olhos com força, irritado pelo silêncio e pela barba de três dias que coçava no rosto. Lembrou da boate sem letreiro, da fumaça, do cheiro de Gudang Garam, dos risos, da menina com sorriso artificial lhe tocando entre as pernas. Abriu e baixou os olhos para observar a mancha na camisa. Lembrou de empurrar a menina devagar, sem coragem de prosseguir; lembrou do riso detrás do balcão e de fechar os olhos de vergonha. A lembrança lhe excitou, mas a camisa lhe fazia mal; arrancou sem desabotoar completamente e a atirou junto com a gravata em um canto. Escancarou a janela; as cinzas dançaram com o vento sem sair do cinzeiro improvisado. Um bafo quente entrou na sala bem devagar.
Os cachorros latiram de novo. O portão rangeu estranhando mãos descuidadas. A porta abriu de repente. Um homem baixo e atarracado apareceu com uma careta. Empurrou com raiva Júlio contra a parede. O outro tropeçou, mas se segurou no banquinho; os papéis caíram. Uma voz feminina e rouca murmurou palavras que Júlio não conseguiu entender. Uma mão pesada estalou na cabeça de Júlio; algo duro demais para ser um punho explodiu na boca do estômago. Júlio caiu, chutes se repetiram nas costelas, na cabeça; o sangue encobria os olhos. Não conseguia ver nada além de três vultos se mexendo em volta dele.
Ouviu livros pesados caindo no chão. Vozes grossas descontentes, o murmúrio rouco mais uma vez. Dedos finos e cuidadosos entraram nos bolsos da calça ainda em Júlio. Silêncio. As cinzas se aquietaram. A brisa quente parou. Em um dos quadros na parede, uma imagem se desenhava com o sangue; um rosto chorava lágrimas vermelhas.

Um comentário:

Discoteca Completa disse...

Gostei da história, especialmente a ligação entre a ação e os quadros na parede. Abs!