sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Vermelho e azul

O Sanhaço bicou o galho do ipê várias vezes, uma folha bem amarela cai não cai resolveu desabar bem em cima dele. Assustou, lembrou do gavião da tarde anterior, bateu a asa forte e pequenas folhas voaram; pulou para o jacarandá azul ao lado. Logo de manhã, pensou, e já atacado por uma folha. A pardalzinha passou grasnando, o Sanhaço fingiu não ver. Mal o sol apontava, a pardal já começava a piar, ninguém podia com tanto pio.
O jacarandá florido era bem melhor, podia ficar ali mesmo, escondido em todo aquele azul. Que preguiça de procurar outra árvore, sabia haver sementes por perto, mas não queria voar. O bico curvado se abriu em um bocejo; espreguiçava quando viu outra folha vindo na sua direção. Que folha que nada. A sombra passou reto, zunindo... O Sanhaço torceu o pescoço pro lado, fingindo não ver, ficou de soslaio.
A Curió sentou no galho bem abaixo, na direção do rio. Azulão e esguia, a curva da asa brilhava; ela ficava bem em meio ao jacarandá. Sem tirar o olho da plumagem da Curió, o Sanhaço se moveu para a ponta do galho. Queria observar melhor, uma Curió tão azul... Voou para o galho do lado, a Curió subiu repentina, o Sanhaço torceu a asa para não bater e soltou um pio. A Curió virou assustada e cruzou por meio dos galhos. De longe, fitava curiosa. Voltou, pediu desculpas, não tinha visto, que negligência, perdoasse, era nova por ali. O Sanhaço fez muxoxo, exagerou o incômodo, e ainda com bico meio fechado disse que não era nada. Ela piou mais, torceu o pescoço em um olhar doce; ele amoleceu. O azul combinava tão bem, tão parecidos.
As asas bateram ao mesmo tempo; ele piou feliz, lembrou das sementes na paineira vermelha. Ela aceitou. Perto da árvore, o Sanhaço avisou para ir devagar, não havia ali o azul do jacarandá. Foi na frente enquanto a Curió se ajeitava em dos galhos mais baixos. O Sanhaço fez um rasante e avistou algumas sementes no chão. Na volta, o Tiê-Sangue voava entre os galhos, mais vivo que as folhas da paineira e carregava uma semente no bico; a plumagem vermelha parou ao lado da Curió, saudou com o peito estufado. A Curió agradecia, as asas batendo bem devagar. As folhas vermelhas da paineira não deixavam o Sanhaço ver bem. As sementes sumiam, aparecia no lugar a imagem do verão anterior, a colibri fazendo do Tiê uma flor.
Asas semi-abertas, o Sanhaço se deixou cair, pousou no primeiro néctar e esvaziou o copo. Encostou no tronco, as penas amarfanhadas, os olhos fechando... Algum tempo passou, acordou com o pio da pardal novamente; ela voava rápido na direção do jacarandá, parecia fugir. O Sanhaço lembrou do gavião, ficou atrás de uma folha grossa. Devia voltar na paineira, a Curió... Resolveu voltar... A Curió estava entretida com a semente, viu o Sanhaço, fingiu não ver. Ele pousou no galho do lado, procurando prestar atenção em volta. A Curió ainda de costas, soltou duas notas longas. O canto, lindo, inebriava o Sanhaço. De repente, um borrão de penas marrons; o Sanhaço já não ouvia mais a Curió, não via o vermelho da paineira, não pensava mais no Tiê. Era sangue manchando seu azul.

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