terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Caminho Sinuoso

Marta era uma fada: pés pequenos na sandália da moda, embalavam um andar tinhoso de quem sabe ter seguidores olhares. Os longos cabelos castanhos ondulavam até o quadril farto de ninfeta juvenil. A pele, ai, a pele macia e nova, continha carnes firmes que eu ansiava até o meu último fiozinho de cabelo. E os olhos?! Verdes mares, emoldurados em longos cílios pretos, diziam sempre o que eu queria ouvir. De mãos dadas com Marta, eu podia sentir o calor dos olhares invejosos dos outros homens. Com Marta o amor era melhor porque ela era linda.
Não pude com tanta graça, casei-me com ela. A boneca tinha de ser minha, toda minha, e exibir meu selo de propriedade.
Já com meu troféu em mãos, tratei de cuidá-lo com afinco. Dei-lhe brincos, viagens, filho. Trabalhava sempre pensando nela, doce Marta, linda Marta. Sua beleza florescia, bem-tratada, sempre arrumava um tempo para fazer tratamentos nos longos cabelos castanhos. Seu corpo ganhou formas, é verdade. Mas tinha porte de potranca segura.
No dia-a-dia, sua beleza mudou. Não diminuiu, amadureceu. Cuidava da casa, do nosso filho, de mim, com a mesma destreza com que equilibrava os quadris sobre os saltos. Marta saltou as crises, a adolescência, as perdas e as alegrias.
Ela estava sempre ao meu lado, brilhando seu sorriso enquanto eu chorava. Trouxe-me chás quando perdi o sono por causa do trabalho. Afagou meus cabelos nas noites mal-dormidas. Conheceu o mundo a meu lado, provando comigo das belezas que sempre quis conhecer. Tocava piano para mim, mesmo quando eu não estava prestando atenção, imerso em meus pensamentos. Coordenava a sinfonia de camisas-meias-calças-sapatos-cintos que nem eu sabia existir. Criou meu filho, que cresceu forte e direito nas crenças dela.
Mas num dia cinzento de outono, Marta envelheceu. Secaram sua pele e seu humor. O sal de seus olhos temperou o azedume das palavras, e a Fada não mais estava lá. Nosso filho casara-se no verão, e Marta sentiu-se só, pensei.
Passava os dias chorando, olhava para as paredes como se trouxessem estampada a cara do Junior. Dirigia-se a mim como a um estranho indesejado; o olhar cinza como o dia.
Saí desvairado, procurando uma cura para a amargura da minha fada.
Foi quando Ela apareceu. O mesmo andar sinuoso, carnes firmes e olhar insinuante. Segui-a, hipnotizado. Os cabelos balançavam sobre as ancas bailarinas, a Fada estava ali.
Ela esperou que adormecêssemos para falar comigo.
- Sou eu, me reconhece?
Sim, eu reconhecia o cheiro de ninfa, a frescura juvenil. Brilhava no escuro do quarto barato do motelzinho que encontrei. Não pude reconhecer suas formas, havia apenas a luz e o frescor de juventude no ar.
- Mudei de musa, mude comigo também – sua voz ecoava , era a voz de uma Fada.
Pensei em Marta, dormida no quarto que decoramos juntos, anos atrás. Pensei na vida que tivemos, vi-me sentado ao pé da cama, encurvado e torpe.
- Era você este tempo todo?
- Era... mas cansei. Queria um corpo mais jovem, com anseios e planos. Quero brilhar, provocar, ver e ser vista. Gostei de você. Fique comigo.
Pensei novamente em Marta...minha doce Marta. A Fada estivera com ela quando nos conhecemos. Fora por causa da graça que Ela emprestou, que eu a havia notado.
Marta não era a mesma sem a Fada. Mas eu também não era nada sem Marta.
Não respondi à Fada. Apenas saí, sem olhar para trás.

Um comentário:

Bobie Salles disse...

Erika,
Adorei a magia que envolve a história. E também o fato dos dois amantes se complementarem, mesmo com a ausência da fada.
Grande beijo!