quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Ao Bom Ouvinte as batatas

Hoje Silmara está sozinha em casa. Largou suas coisas pelo caminho e correu para o quarto. Agora a vemos colocar sua camiseta mais surrada, seu moletom quase sem elástico, e as pantufas coloridas. Seu casulo do trabalho está agora jogado sobre a cama desfeita.
Ela prende os cabelos num rabo e sai do quarto suspirando até aterrissar no sofá. Liga a televisão só para dizer que descansou. Zapeia nervosamente todos os canais, mas sabe que nenhum programa vai afastá-la de seus afazeres em casa. Priorizara seu trabalho, o namorado, sua família e seus amigos por toda a semana, agora a casa agonizava por cuidados.
Respira fundo, joga os pés para cima, aproveitando o impulso da descida para levantar-se das almofadas já quentes e macias. A lista que preparara pela manhã era comprida, e cheia de tarefas pouquíssimo prazerosas – para qualquer pessoa que não estivesse tão feliz em tê-las assumido. Saíra da casa dos pais havia pouco tempo, e qualquer atividade em sua própria casa era o símbolo da dedicação para ela mesma.
Na cozinha, arregaça as mangas, olhos fixos nas três panelas e na pilha de pratos – sem falar nos copos e canecas que haviam pipocado como ervas daninhas em sua pia. Não sem uma trilha sonora! Corre à sala e monta uma seleção musical animada para acompanhar a “baixada da Dita”.
Volta-se para a cozinha, mas estaca no primeiro passo. Um som terrível vem do outro lado da sala. Um som intermitente, agudo e assustador. O coração de Silmara dispara. Vemos Silmara fechando os olhos e apertando a boca, virando-se a contragosto para a fonte do som. Desliga sua música. Caminha a passos pesados, arrastando os pés e a bola de ferro que agora dificulta sua locomoção.
- Alô.
É sua amiga, aquela que liga freqüentemente, sempre que tem desavenças com o namorado. Ela dá boa noite a Silmara, ela replica com educada reverência. Já adivinhando o tema da conversa, Silmara pergunta de todos da família, deixando o namorado para o final. Enquanto ganha tempo, agora acompanhamos Silmara correndo com o telefone preso ao ombro. Ela abre o armário da sala, tirando um aparato. Não nos é possível identificá-lo, pois a sala está semi-iluminada.
Ela agora pergunta do namorado da amiga; desde as saudações, Silmara esteve em silêncio, era toda ouvidos.
A amiga começa a história. Silmara deita o telefone sobre o sofá; o aparato ao lado. Silêncio na sala.
Pé ante pé, ela agora mira o relógio no computador. Marcamos 20h30min. Entra na cozinha, faz de conta que arregaça as já levantadas mangas, e inicia a lavagem da louça.
Terminada a primeira tarefa, Silmara começa a preparar seu jantar. Panelas no fogo, separa as roupas a serem lavadas, entre as diversas pilhas no quarto e na área de serviço. Corre silenciosamente até o quarto, guarda as demais roupas, arruma a cama. No escritório, joga fora os papéis da semana, separa as contas ainda não pagas. Volta à sala, dá água às plantinhas já desmaiadas, no caminho olha para o filme que ainda pretende ver, tomando seu vinho. Volta ao relógio: 21h30.
Com novo suspiro, que mantém os ombros tensos, Silmara volta ao sofá. Acende a luz. Agora talvez possamos identificar o aparato ao lado do telefone. Mas Silmara senta-se quase sobre ele, ainda não sabemos do que se trata. Ela pega o telefone, coloca-o ao ouvido.
- ....e é isso, Sil.....difícil né?
Ao que Silmara responde:
- É verdade....paciência, amiga.
- E você?
- Eu estou bem, muita correria no trabalho, o Juliano está bem, meus pais também.
- Ah, que bom.
Um longo bocejo da amiga.
- Bem... hora de jantar! Nos falamos depois, ta?
- Tudo bem. Boa noite.
Silmara desliga o telefone. Toma o aparato nas mãos.
Agora o identificamos: é um gravador.
Silmara testa a fita. Uma hora exata, com “hum’s” gravados a cada 3 minutos aproximadamente.
Ela levanta-se, vai à cozinha, faz seu prato e senta-se em frente à televisão.

2 comentários:

Bobie Salles disse...

Olha, vou fazer uma campanha por novos posts aqui hehehehe
Grande beijo a vocês, saudades!

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.