quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Sky=Céu

O Senhor está no Céu!
O Sky está lá, finalmente no colinho de alguém. Agora ele cabe.
Cachorro imenso, uma das misturas mais lindas: mãe dogue alemã, pai weimaraner. Alma de criança, sem idéia do poder do seu corpo forte, da sua mandíbula gigantesca.
Sky – seu nome veio dos seus olhos cor do Céu quando nasceu – virou mar verde depois. Mar de alegria. Mar de docilidade, de inteligência, de inocência.
O Sky tinha medo de chinelo. Era chorão. Era manhoso.

Num churrasco, se metia entre as mesas, seu pêlo brilhante dava vontade de chegar à sobremesa. Era chocolate, aquele chocolate com duas uvas verdes encravadas na carona larga e forte. Seu rabo batia nos pratos, desajeitado e cuidadoso. Ele tinha tamanho e presença pra ganhar todo o churrasco. Mas pedia, babava, suplicava pelos pequenos pedaços que apenas aguçavam mais seu voraz paladar.
No parque, ia arfando. 50 Kg não são fáceis de carregar em seu garboso andar. Sua língua ia tentando chegar ao chão, pingando suor e contentamento. Eram outros cães, eram pombas, ou mesmo seguir a Nicole que ia solta, ao sabor do passeio vira-lata.
Sky tinha medo de bombas. Elas salteavam o seu Céu. Elas acabrunhavam seu sossego bonachão de cachorro babão. Sua vibração fazia-o saltar, latir, olhando para cima, como se as estrelas estivessem explodindo: que absurdo, explodir no meu Céu! O Sky está no Céu agora, explodindo sua criancice moleca.
O Sky tomou remédios a vida toda. Sua pele era rebelde, para equilibrar sua personalidade – cão-sonalidade – dócil. Ela infeccionava ao menor sinal de calor. Ficava com pipoquinhas na cabeça, tinha feridas nos cotovelos. Mas havia remédio, eram comprimidos sem fim de antobiótico, que Sky tomava resignado, envolvidos em patê ou qualquer outro engano. Ele sentava, chorava baixinho, mas abria a enorme boca que poderia ter engolido os remédios e a mão. O Sky confiava que o remédio era bom pra ele. Suas uvas verdes diziam – não gosto, mas se você está me dando, deve ser bom. Depois corria com o rabo frenético a persegui-lo – quero meu biscoito, minha recompensa por tão dramático fardo!
O banho do Sky era engraçado. Ele fuçava a água, mordia o jato, as orelhas apontavam para o chão e o enorme cão virava criança pequena. O shampoo especial exigia quinze minutos a sós com ele. E ele esperava, perseguindo o fio da água que escorria de seu corpão marrom. O banho era uma brincadeira aborrecida, muita espera pelo passeio–seca-pêlos! Mas no fim, quanta satisfação! Já na rua, marcava todos os postes, muros e arbustos que encontrava. Vejam o xixi do cachorro limpinho!
O Sky amedrontava as pessoas que passavam. Seu latido grave através da grade; na verdade dizia venha-brincar-comigo. Mas as pessoas pulavam de susto com a fera enjaulada.
Sky gostava de seus brinquedos, que ele só gostava porque tinha gente pra brincar com ele. Seus brinquedos faziam fi-fi, como os brinquedos de bebês. Ele os mastigava delicado, fazia fi-fi pelos caninos poderosos. Seus brinquedos permaneciam intactos. Quem diria! Pra um cachorro deste porte, tem que ser um brinquedo forte! Não para o Sky, gentil Sky, que lambia suas babas depois de brincar com seu hidrante roxo que fazia fi-fi. Ele puxava os brinquedos, rosnava de fantasia, era bravo de mentirinha. E eu colocava a mão todinha na bocona de fera, pra arrancar o hidrante roxo. O Sky corria pra casinha, escondendo o hidrante - que mala, me deixe lamber meu brinquedo babado!
Na hora de comer, o Sky ficava nas quatro patas. Tanta energia, pra que sentar! Ainda lembro do barulhinho chonk chonk satisfeito. Parabéns, comeu tudo! E já estava o Sky do lado da latinha do biscoito – quem dispensaria a sobremesa?
O Sky tinha ciúmes da sua comida. Mas a Nicole podia beber da sua água, podia comer das suas baguinhas esquecidas no fundo do pote. Nicole folgada, mas é minha irmãzinha....o Sky olhava resignado para a pequena vira-lata revirando sua prataria. Era um gentledog!
Gostava também de comida de gente. Ficava como uma sombra pidona, babando e chorando. Queria as cascas de banana, de pepino e de batata. E frutas – manga era sua favorita, fazia-no babar como nenhuma outra fruta.
Suas corridas eram lindas. A felicidade transparecia no rabo eletrizado, nas orelhas saltitantes. O Sky sorria com o rabo. Seu apêndice fino e comprido era um chicote. Machucava móveis e coxas, estapeava as crianças, sangrava de tanta felicidade. Reconhecia a todos, rebolava numa música só dele, devia ser do Céu.
Mas o sorriso ganhou bigodes de senhor. E as dores da idade chegaram. Seu corpo era grande demais, apesar da alma leve. Tenho certeza de que o Sky queria ser pequeno pra caber no colinho e choramingar pelo cafuné de orelha que ele gostava. Se encolhia na caminha minúscula da Nicole – ele achava que cabia – cabeça e traseiro pra fora, depois de inúmeras voltas tentando fazer caber o corpanzil.
O Sky era uma criança grande. Que morreu criança inocente, sem saber do seu mal. Olhava seus brinquedos, mas seu corpo cansado não obedecia ao frescor da mente. Era sua hora.
A alma jovial queria a liberdade de pular por entre as nuvens do seu CÉU.

5 comentários:

EM OFF disse...

estou apaixonada pelo Sky. ele é real ou apenas uma criação bem feita da autora?

Suzuki disse...

O Sky é real, e adorei saber que mais gente pode se apaixonar por ele. Cada situação existiu...e eu escrevi o post entre lágrimas, pois ele tinha morrido no dia anterior. Eu quis transmitir uma fagulha do encantamento que era aquele cachorro, registrar um pouquinho da magia que é poder observar a alegria pura de um ser ingênuo e doce como ele foi! Obrigada por seu comentário! o Céu agracedece também!

EM OFF disse...

poxa, sinto muito em saber que o Sky morreu. triste mesmo e eu entendo pq também tenho bichinhos - mais especificamente gatos - e sou muito apegada a eles. são verdadeiros e encantadores amigos de patas.
um bjo,

Bobie Salles disse...

E a senhorita "Suzuki" me fez chorar novamente. Quando o Godinho indicou que eu visse o post, hesitei... pensei no bichinho perdido. Mas ao ler (somente hoje, confesso) vi que o Sky er mais que bichinho! Ele era digno de vontade de viver :D E lutou por isso. As vezes eu acho que alguns cachorros e gatos são gente. E ao ler isso, tive certeza!
Amei o post :D
E quando vocês vão em casa?
Grande beijo,
Bobbie.

Aux Puces disse...

Que lindo................