domingo, 30 de dezembro de 2007

Filosofia da clavícula

João pisou firme no tatame; com 1,95m, olhou todos os outros alunos de cima. A camisa branca apertada mostrava o tronco desenhado por anos de musculação; os braços podiam entortar barras de aço. Era o primeiro dia de aula.
Sete alunos conversavam; João puxou papo, perguntou se o professor era bom. Mestre Patinho apareceu e pediu, baixinho, para os alunos entrarem em formação. A sala era grande e bem iluminada; os espelhos nas paredes aumentavam a sensação de espaço. Na parede sem espelhos, quadros de lutadores famosos; no maior deles, quatro lutadores da mesma família sorriam simpáticos.
João se mexeu devagar olhando para o professor; Mestre Patinho era magricela, sorria de maneira suave. A montanha de músculos olhou bem para baixo quando cumprimentou Patinho (o professor não passava de 1,70m). Voltou para a formação sorrindo com menosprezo.
O Mestre mencionou o novo aluno e achou oportuno falar da sua filosofia. Nada de arrumar brigas na rua, nada de resolver discussões usando a força, nada de usar a arte marcial para machucar os outros. O diálogo era sempre melhor que quebrar um osso.
Patinho ouviu uma risada debochada; era João falando com um aluno ao lado. O Mestre perguntou se havia alguma dúvida.
- Ah, falar é fácil; na teoria tudo é muito bonito. Quero ver me mostrar na prática.
- Eu mostro pra você.
Patinho deu três passos devagar, se aproximou de João. Os alunos riram nervosos; confiavam no professor,mas João era muito grande, um monstro de 130 kg de puro músculo. Não parecia uma pessoa normal, era um robô disfarçado de gente, uma máquina criada para exterminar.
João esperava rindo. Patinho teve de fazer o primeiro movimento, colocou o braço no ombro do grandalhão. O punho enorme se fechou e voou na direção do peito do professor franzino, que girou o corpo e viu o colosso passar raspando. Patinho terminou de girar e passou debaixo do braço da máquina de músculos; torceu o pulso do exterminador enquanto empurrava o ombro e dava uma rasteira em João. Com um estrondo, os dois caíram no tatame. As pernas do Mestre se enrolaram no braço chegando até o pescoço do aluno.
Patinho empurrou o braço de aço para cima, torceu o ombro sem dificuldade, e disse devagar: - Bate no chão.
João resistia; Patinho empurrou de novo, agora com força. A máquina exterminadora berrou e estapeou o tatame com a mão livre. Patinho levantou, com indisfarçável prazer; um pequeno sorriso não desgrudava do rosto. João continuou gritando até que outro professor veio e colocou no lugar a clavícula deslocada.
Patinho ficou olhando a parede, de costas para os alunos, até conseguir tirar o sorriso. Virou para a classe e falou da importância de evitar uma briga. Nada de quebrar ossos, conversar é melhor. Olhou para João, no chão, mas já com a clavícula no lugar (e nenhum osso quebrado) e avisou que não queria esse tipo de aluno na academia. Patinho era convincente.
João voltou dois meses depois para a academia. Está lá há quatro anos; é o melhor aluno. Patinho gosta dele, mas sempre avisa que se brigar na rua, será expulso da academia. João briga pouco; quase sempre em outras cidades ou em lugares distantes de Patinho. Nesses lugares, ele não usa a filosofia do Mestre. Nada de deslocar clavículas; João quebra ossos.

2 comentários:

EM OFF disse...

huahuahua. esse joão não aprende! e o mestre patinho é o máximo. será que há exemplos de mestres como ele na vida?
Fran

Godinho disse...

a gente identifica muito joão quebra osso por aí... eles são espalhafatosos, difícil deixar de notar. Mas os patinhos existem sim, são muitos. São mais sutis. Eles não quebram ossos. Mas o discurso do diálogo é pouco mais do que isso, discurso. Uma clavícula fora do lugar sempre fala mais alto.